A busca por algo que faça sentido na vida passa pela compreensão do amor como parte da nossa natureza

Cordilheira Dhauladhar em Himachal Pradesh, India. Credito: Florencia Costa

Glória Arieira, do Centro de Vedanta e Sânscrito Vidya Mandir, e Lia Diskin, da Palas Athena recebem uma das maiores condecorações civis da Índia

Uma das maiores condecorações civis da Índia foi concedida em janeiro a duas mulheres que divulgam no Brasil conceitos e filosofias indianas.  Lia Diskin, da Associação Palas Athena, fundado em 1974 em São Paulo, e Glória Arieira, do Centro de Vedanta e Sânscrito Vidya Mandir, criado  em 1984, no Rio de Janeiro.  As duas participaram de um evento online organizado pelo Centro Cultural Swami Vivekananda, em São Paulo, dirigido pela indiana Puja Kaushik.

Glória Arieira foi para a Índia em 1974, após ter assistido uma palestra de Swami Dayananda no Rio de Janeiro. “Eu estava em busca de algo que não sabia extamente o que era. Ao ouvi-lo falar sobre o Vedanta, em 1973, percebi que era aquilo que eu queria estudar”, contou.

Ela foi para a Índia no ano seguinte, junto com o marido.  Voltou para o Brasil em 1978 e em 1984 fundou o Centro de Vedanta e Sânscrito Vidya Mandir, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Neste momento de pandemia do Coronavírus, as aulas de Sânscrito e de Vedanta estão sendo ministradas online. O Centro Vidya Mandir tem uma editora também. “Um fato curioso que aconteceu durante a pandemia é que as pessoas estão buscando mais aulas e comprando mais livros. As pessoas estão buscando alguma coisa que faça sentido. Há mais alunos hoje do que nos tempos presenciais porque havia o problema da distância. Temos hoje alunos em vários lugares do Brasil e em outros países”, contou.

Lia Diskin (esquerda) e Glória Arieira

Glória disse que essa busca é um questionamento sobre o por que estamos vivendo tudo isso. “Qual é o significado de tudo isso? Como que apesar dessa adversidade, dessa ameaça invisível, podemos encontrar uma certa paz, uma certa tranquilidade? “, disse.

Ela explicou que o estudo de Vedanta é basicamente sobre a natureza de quem somos. “Não está vinculado a nenhuma religião diretamente e é basicamente um questionamento filosófico, uma visão que os Vedas trazem sobre o sujeito, sobre quem somos além do nosso corpo, da nossa mente.   O Vedanta leva a pessoa a um questionamento sobre o propósito na vida, destacou Glória.

“Todos querem a mesma coisa: ser felizes. Ou seja, é um desejo natural, que nasce com a gente. Então, há de ter uma solução. A gente nasce com sede. E há uma forma de saciar essa sede”, afirmou. A felicidade _  explicou Glória _   não é uma euforia, é uma plenitude. “Felicidade não é uma alegria constante na vida, não é o conforto, não é a conquista de coisas, mas é estar pleno, satisfeito consigo mesmo”, ensinou.

Glória conta que já teve alunos de várias religiões, cristãos, muçulmanos e judeus. “Todos dizem que o estudo de Vendata lhes deram um entendimento mais profundo sobre as suas próprias religiões”, lembrou.

Ela ressaltou a importância de compreendermos a humanidade do outro. “O amor está na natureza básica do ser humano. Quando nos sentimos plenos, conseguimos aceitar a outra pessoa como ela é, conseguimos acolher os outros”, afirmou.

Sobre o ensino do Sânscrito, Glória explicou que trata-se de uma língua clássica, antiga, que deu origem a várias outras línguas da Índia. “ É uma língua muito bem estruturada. Todas as regras são lógicas e não falham”, disse. Com o Sânscrito, aprende-se a pensar de uma outra maneira, pensar uma outra cultura, segundo ela.

A  Associação Palas Athena, sediada em São Paulo,  divulga, entre outras coisas, a cultura de paz, de não-violência, e as ideias de Mahatma Gandhi. Lia Diskin, nascida na Argentina, contou como foi singular seu ingresso no mundo indiano. Deu-se por meio de um reitor de uma universidade católica de  Buenos Aires, de tradição jesuíta, que foi seu primeiro mentor espiritual.

O professor estudava as filosofias indianas e meditava. Um certo dia, Lia, ainda adolescente, o viu sentado em posição de Padmasana (Lotus), meditando. “Isso era final da década de 60, não era algo que fizesse parte da narrativa intercultural entre a Índia e a Argentina”, observou.

Lia Diskin também recebeu forte influência do poeta indiano Rabindranath Tagore, o primeiro prêmio Nobel de Literatura não europeu, em 1913.  Ela lembrou que Tagore visitou Buenos Aires a convite da escritora e intelectual argentina Victoria Ocampo . Foi um empurrão que a fez estudar questões como o conhecimento ligado à prática, tão encarnada na figura de Mahatma Gandhi.

Ela formou-se em Teoria Literária e teve como um de seus mestres o escritor Jorge Luis Borges. Em 1972 ela foi para a Índia estudar filosofias indianas.

Gandhi é a inspiração para qualquer tipo de atividade na Palas Athena, explicou ela. “Ele foi o grande arquiteto político de uma nação com diversidade espantosa, com várias línguas, uma nação que foi invadia diversas vezes. Em cada uma delas deixou-se um lastro que acabou sendo assimilado culturalmente e costurado muitas vezes a filosofias ousadas”, disse. Segundo Lia Diskin, Gandhi teve a genialidade de tornar todo esse arcabouço cognitivo e contemplativo em um palco para uma ação necessária,  urgente, que era a independência da Índia. “Ele fez a costura de tecidos conflitantes e conseguiu reunir tudo isso de uma maneira magistral. Historicamente tudo isso não terminou com a morte dele. É um legado que continua sendo reinterpretado e que permite muitas leituras”, completou.

De acordo com Lia, Gandhi tem uma porosidade, uma capacidade de diálogo com quem não necessariamente concordamos mas com quem podemos aprender. “Isso que podemos aprender está de algum modo registrado nos projetos da Palas Athena”, explicou ela, ressaltando que a associação possui 50 voluntários. Eles realizam projetos campo da educação e da saúde em São Paulo.

A Palas Athena trabalha com o conceito de paz, mas não como ausência de conflito, e sim como terreno onde se pode promover um mínimo de legitimidade, combatentdo as desigualdades e fortalecendo os princípios democráticos, de liberdade e de justiça social.

Um dos tópicos que a Palas Athena trabalha é a comunicação não-violenta. Em meio ao medo da pandemia, como agir de forma tranquila e não partir para agressões, uma reação comum diante do medo? “A primeira atutude é não negar que nos sentimos vulneráveis e frágeis. “Nenhum de nós estamos equipados emocional ou mentalmente para dar conta disso”, afirmou. O segundo passo é constatar que há coisas sobre as quais temos controle e outras sobre as quais não temos controle, segundo ela. “Precisamos escolher como reagir  diante das coisas sobre as quais não temos controle”, disse. É exatamente nesse ponto que entra a comunicação não-violenta, ou seja, é preciso agir seguindo os princípios da ahimsa (não–violência), encontrados nas escolas Ioga, Vedanta, nas filosofias jainistas, budistas, sikhistas e em todas as outras tradições.

— Florência Costa

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