“A Esposa Solitária” (Charulata) era o filme favorito do seu próprio diretor, o indiano Satyajit Ray

Madhabi Mukherji como Charulata. Crédito: Satyajitray.org

Inspirado em uma novela de Tagore, “A Esposa Solitária” (“Charulata”) conta a história de uma esposa ignorada pelo marido na conservadora Calcutá do século 19

Quando um gênio da literatura inspira um gênio do cinema, nasce filmes como “A Esposa Solitária” (Charulata, 1964), o drama mais sensível e sutil de Satyajit Ray, o maior diretor do cinema indiano. O filme –  o preferido do próprio diretor –  é baseado em uma novela do poeta Rabindranath Tagore, primeiro não-europeu a ser agraciado com Prêmio Nobel de Literatura, em 1913.

Os livros e os bordados eram as grandes companhias da bela e inteligente, mas ignorada Charu, esposa de Bhupati, um editor de jornal e orgulhoso intelectual de Calcutá do século 19. Ele só tinha olhos para o trabalho.

Como uma respeitável mulher da elite indiana do século 19, ela não podia sair de casa sozinha. Procurava matar o tempo lendo livros, escrevendo ou bordando.

Charulata e Amal. Crédito: Satyajitray.org

Pássaro em uma gaiola vitoriana, Charulata (representada pela atriz Madhabi Mukherjee) observava o mundo externo com os seus inseparáveis binóculos.

A rotina enfadonha da mulher, porém, sofre uma reviravolta com a chegada de Amal (representado por Soumitra Chatterjee), um primo do marido que se interessa pelos escritos e pela leitura dela. Nasce uma sincera amizade entre os dois, mas esse sentimento evolui para algo mais forte. 

A vida limitada de Charu e tédio extremo é evidenciado logo na primeira cena, com o foca nas mãos dela, ocupadas com seu bordado. Ao buscar algo mais interessante para fazer dentro  da mansão,  ela percorre de janela a  janela, espionando as pessoas na rua com o seu binóculo. A Câmera a acompanha nessa tentativa de distração. Os binóculos simblizam o desejo de fugir da rotina mortal, é o instrumento que a ajuda a descobrir a vida fora da gaiola e a se aproximar do que passa a amar.

Charulata com os binóculos. Crédito: Satyajitray.org

Em uma das cenas mais marcantes, Charu em um balanço no quintal, voando para frente e para trás. No ir e vir, ela espia Amal com os binóculos, que está deitado em uma esteira no chão ao lado dela. O final do filme ficou para a história: Charu e um Bhupati cabisbaixo, após saber que a mulher havia se apaixonado por outro, estendem as mãos na direção do outro. Mas antes que seus dedos se toquem, a câmera congela a cena.

A novela de Tagore que inspirou o filme chama-se Nastanirh (algo como “O Ninho despedaçado”, tradução livre).  A obra ganhou ares de controvérsia com a suspeita de que era inspirada na vida pessoal de Tagore. Os sentimentos entre ele e Kadambari, a esposa de seu irmão mais velho, ultrapassaram a linha da irmandade. No final de sua vida, Tagore revelou que os olhos de Kadambari o inspiraram em suas pinturas que retratam mulheres. Além de escritor, Tagore foi filósofo, educador e pintor.

Um espaço de tempo superior a meio século separa o poeta do cineasta, mas ambos compartilham o fato de pertencerem a famílias que navegaram na ressurgência intelectual e espiritual de Bengala Ocidental. A chamada Renascença Bengalesa foi um movimento cultural e social nessa região Leste da Índia nos séculos 19 e 20, durante o período de dominação do Império Britânico.

Charulata. Crédito: Satyajitray.org

Se Tagore foi agraciado com o Nobel, Ray recebeu o Oscar de reconhecimento por toda a sua obra. Seus filmes mais famosos são os que compõem a Trilogia de Apu (“A Canção da Estrada”, “O Invencível” e “O Mundo de Apu”), que encantou o mundo nos anos 50. 

Assim como Tagore, Ray tinha múltiplos talentos, como o de escritor também. A trilha sonora de Charulata, filme premiado no Festival de Berlim, foi composta pelo próprio diretor. A mistura de influências ocidentais e orientais marcou o trabalho de Ray, que largou o trabalho de publicitário para se dedicar ao cinema após o impacto de ter assistido Ladrões de Bicicleta, de Vittorio de Sica. 

— Florência Costa


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