A história da mãe baiana que enviou seu amor com comida indiana ao filho, médico de UTI em São Paulo

Maria das Graças em Salvador, Bahia. Crediito: José Maria Magnavitta Filho

Esta é uma daquelas histórias emocionantes que surgem em meio a momentos de profunda tristeza, como o da pandemia de Coronavírus. É uma história sobre comida que vai aquecer o coração de muita gente. Como comida é carinho —  e disso os indianos sabem há milhares de anos —  trata-se também de uma história de amor, mas também uma história sobre saudade de uma mãe e um pai, distantes do filho que está no front de uma batalha. É uma história sobre a empatia em tempos de pandemia. É uma história sobre solidariedade, independente de sua nacionalidade. Essa história aconteceu na primeira semana de abril, temperada com ingredientes brasileiros e indianos.

Maria das Graças é uma enfermeira aposentada que vive em Salvador (Bahia). Nos últimos tempos, ela e o marido José Maria Magnavitta Filho estão muito agoniados porque o filho Guilherme, 28 anos, trabalha como médico na UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, o epicentro da Covid 19. Guilherme, um apaixonado por gastronomia indiana e vegetariano, vive sozinho na cidade.

Há alguns anos, Maria das Graças, apelidada de Gal,  costuma preparar para seu filho pratos indianos que aprende pelo Youtube. Mas agora, como cuidar do filho estando tão longe? Um belo dia, Gal teve uma ideia: procurou no Google Earth algum restaurante indiano que fosse perto do local onde o filho mora, em Pinheiros. Achou o Samosa & Company, que ela e o marido não conheciam, mas é bastante famoso na cidade. Gal ligou e falou com o dono, o indiano Vijay Bavaskar. Desde março, seu restaurante tem atendido encomendas. Gal explicou sua história para Vijay e encomendou samosa (pastel indiano de batata), Navratan Korma (vegetais com molho), pão naan, arroz basmati e chutney. Ela pediu para que a entrega fosse no dia 5 de abril, exatamente ao meio dia, porque sabia que o filho tinha tido um plantão muito longo e tenso na noite anterior e após o almoço ele iria correr de volta para a trincheira hospitalar. Ela sabe bem o que é cuidar das pessoas: Gal também foi uma profissional de saúde, foi enfermeira de UTI de recém-nascidos.

Mas Gal tinha um pedido especial para Vijay, além da comida: que ele colocasse no pacote um bilhetinho: “Com amor, do papai e da mamãe”. Na verdade, Gal tinha muito mais a dizer no bilhetinho, mas não teve coragem de pedir a Vijay tudo o que o seu coração pedia para escrever porque ficou sem graça: não o conhecia pessoalmente.  Ela deixou a mensagem assim, amorosa, mas enxuta.

O que ela não sabia é que, como bom indiano, Vijay também vê comida como demonstração de carinho e sabe muito bem que amor de mãe é infinito. “Aqui em casa sempre foi assim. Comida pra gente é domonstração de carinho. Ás vezes é mais para a alma do que para dar energia para o corpo”, disse Gal, em uma entrevista ao BECO DA ÍNDIA.

O bilhete que Vijay Bavaskar escreveu em nome de Maria das Graças e José para filho Guilherme

Mas ela não explicou nada disso a Vijay, que  escreveu o que lhe veio ao seu coração indiano, de um pai, também agoniado, que está distante dos dois filhos e da esposa, Deepali, chef do Samosa & Company. Deepali foi para a Índia visitar a família pouco antes da decretação do isolamento social obrigatório no país asitático, que perdura até hoje.

 “Dr Guilherme, essa é uma surpresa agradável enviada por sua mãe e pai de Salvador. Sua mãe me pediu para trasmitir isso: Querido filho, você é muito especial para nós dois. Mamãe e papai te amam muito. Somos pais orgulhosos de ser abençoados com um filho como você. Tome cuidado e desfrute da sua comida indiana favorita. Filho, te amo muito. Sua mãe”, escreveu Vijay.

Guilherme recebeu a comida, maravilhado. Tirou uma foto do prato que fez e mandou para a mãe pelo WhatsApp. “Quando o Gui (Guilherme) foi jogar fora as embalagens do almoço, ele esqueceu um pedaço de pão lá dentro, ficou desesperado, mas não teve jeito. Teve de deixar o pão lá, claro, não pegou de volta”, riu. “Eu fui sucinta no bilhete porque não conhecia Vijay. Mas ele acabou mandando um bilhete maior, expressando tudo o que eu pensava, sem que eu tivesse dito. Quando vi o bilhete comecei a chorar”, contou Gal, emocionada.

Imediatamente, ela mandou uma mensagem pelo WhatsApp para Vijay: “Me permita fazer uma ligação de vídeo, Preciso agradecer pessoalmente”, escreveu. “Eu estou muito emocionado agora. Não vou aguentar essa emoção. Eu ligo pra você”, respondeu Vijay. “Eu dei um tempo mas depois liguei pelo video porque queria falar olhando nos olhos dele. Vijay disse que se sentiu como se fosse a própria mãe indiana falando com ele, que está tão longe aqui no Brasil. E quando eu perguntei como faria para pagar ele se recusou a cobrar”, contou Gal.

“Fiquei muito emocionada, não pelo dinheiro, mas pela sensibilidade nesse momento. Numa hora dessas, deixa de existir o que separa as pessoas: o dinheiro. O que existe é a conexão de carinho, de amor.  Somos todos irmãos, independente das nossas nacionalidades, de vivermos em estados separados, de não nos conhecermos pessoalmente”, disse a mãe baiana. Ela lembra da música Imagine, de John Lennon,  e reflete: “Imagina o mundo sem tudo o que nos separa”.

Vijay explicou ao BECO DA ÍNDIA: “Essa foi uma experiência muito emocional. Uma mamãe de Salvador pedir para mandar comida para seu filho que está muito cansado do plantão do dia anterior, que é um médico que trabalha na UTI, na luta contra o Covid 19 em um hospital de São Paulo”.

Guilherme conheceu a comida indiana em 2012, quando foi estudar em Boston (EUA), onde há uma forte diáspora indiana. Quado os pais foram visitá-lo, Guilherme levou-os a vários restaurantes indianos. Depois ele voltou ao Brasil e a mãe começou a preparar pratos como paneer com ervilha (panner é uma espécie de ricota indiana), samosa, lassi ( um tipo de bebida indiana feita com iogurte), arroz basmati, e outras adaptações como tofu com garam masala (mistura de especiarias indianas).

Durante a ligação por vídeo, Gal mostra com orgulho a sua munição na cozinha: um imenso pote de especiarias, que também presenteou o filho, que gosta de cozinhar, o garam masala e o asafoétida que comprou nos EUA, além de uma caixa de açafrão e o seu precioso livro de receitas indianas, como Brinjal Dahi (Berinjela com iogurte).  “Meu chutney de manga é maravilhoso. Também preparo naan e chapati ( dois tipos de pães indianos)”, sorri.    

No final da conversa, de uma hora por video call no WhatsApp, Gal diz que está com saudades do filho, preocupada. E enxuga uma lágrima que se solta atrás do óculos. Gal chorou o choro do amor e da esperança, imaginando  um mundo sem ganância, sem fome, com todos partilhando tudo. Afinal, Lennon já dizia: “Você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único. Espero que um dia você junte-se a nós. E o mundo viverá como um só”.  É só imaginar.

Florência Costa

6 Comments em "A história da mãe baiana que enviou seu amor com comida indiana ao filho, médico de UTI em São Paulo"

  1. Linda história, conheço a família de Gal, linda e muito humana, todos são assim, um exemplo de família.

  2. Que linda declaração de Amor! Amor de mãe, Amor infinito

  3. Sou mãe e imagino td q essa mãe deve estar sentindo e,dar pra sentir o amor do outro lado acalentando esse filho desconhecido

  4. Cláudia Hartley | 14 de maio de 2020 at 01:31 | Responder

    Minha qurrida Gal, isso é muito você. Se preocupar não só vom os seus, mas com todos. Nunca esqueço que precisei dobar o plantão, você odiava dar SN,me pediu prcar e fiquei, vc foi pra casa, mas, logo voltou me trazendo lanche, sabonete etc. Que vc seja inspiração pra muitos pelo mundo.Saudades.

  5. O maior amor do mundo é o de mãe. Imagino a saudade é preocupação.

  6. Linda história de amor e empatia. Tenhotambém,um filho em SP, médico e que mora em Pinheiros. Imagino a preocupação da Gal, é a minha, também.

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