A Índia controla a Covid-19 com lockdown, tecnologia e pesquisa farmacêutica, diz consul do país em SP

A Suíça manifestou solidariedade com a Índia em sua luta contra a pandemia de coronavírus projetando a bandeira indiana na famosa montanha Matterhorn. Projeção de luz de Gerry Hofstetter / Foto Gabriel Perren

A Índia registrou seu primeiro caso de coronavírus (Covid-19) em 30 de janeiro de 2020, mas ações preventivas do governo ajudaram a achatar a curva, explicou o consul-geral da Índia em São Paulo, Amit Mishra. Com essas medidas, a taxa de duplicação do vírus diminuiu de 3 para 12 dias.

“O sucesso da Índia se reflete não apenas em termos de casos confirmados, mas também em baixos números de mortalidade em comparação com outras nações”, disse. Em 11 de maio de 2020, a Índia, país de 1,3 bilhão de habitantes, registrou 67.152 casos confirmados e 2.206 mortes. Em comparação, 4,2 milhões de casos confirmados e 284 mil mortes foram relatados globalmente até aquele momento.

“Nosso sucesso em retardar a disseminação do coronavírus (Covid-19) é resultado de uma estratégia de gerenciamento detalhada e de um plano bem executado, sob a liderança do primeiro-ministro Narendra Modi. Conseguimos provar que as previsões do dia do juízo final estavam eradas”, afirmou. Segundo essas previsões, milhões de pessoas seriam infectadas e haveria o colapso da infraestrutura de saúde na Índia.

Os estudos mais recentes indicam que se não houvesse uma intervenção tão forte e eficaz, o número de casos confirmados na Índia até a data teria ultrapassado 12 milhões, informou o dipomata.

Modi assumiu esse desafio muito cedo e formou um grupo de ministros para monitorar e revisar a situação, destacou Amit Mishra. “O primeiro-ministro realiza reuniões regulares de revisão com várias partes interessadas. Sob a liderança política e executiva decisiva do primeiro-ministro, a mobilização de sistemas de administração pública nos níveis estadual e distrital garantiu uma resposta coerente em todo o sistema à pandemia de coronavírus”, observou.

O passo mais visível dado pelo governo da Índia foi o lockdown (o bloqueio social obrigatório) em todo o país. O bloqueio, sem precedentes na história humana devido à sua escala populacional, foi imposto em 25 de março de 2020, com o objetivo de interromper a transmissão através do distanciamento social e fornecer às autoridades tempo para melhorar a preparação médica. “O bloqueio recebeu uma resposta nacional sem precedentes”, explicou Mishra. Desde então, o bloqueio foi estendido duas vezes e está em vigor até 17 de maio de 2020.

Cônsul geral da Índia em São Paulo, Amit Kumar Mishra

“O bloqueio nos permitiu combater o coronavírus por meio de um programa de zoneamento massivo, ou seja, seguir um início de gerenciamento de contenção e gerenciamento baseado em ‘cluster’. Os 733 distritos da Índia foram divididos em zonas vermelha, verde e laranja, dependendo do número de casos de coronavírus ativos presentes na área”, informou. O bloqueio foi substancialmente relaxado nas zonas verde e laranja, com a maioria das atividades sendo permitidas agora, em comparação com a zona vermelha, onde há restrições rigorosas.

O bloqueio não foi o começo, mas a continuação lógica da estratégia indiana para lidar com o novo coronavírus. A resposta da Índia à pandemia de coronavírus foi iniciada muito antes da Organização Mundial de Saúde (OMS) declarar que se tratava de uma ‘emergência de saúde pública de interesse internacional’, e antes que o primeiro caso fosse confirmado no país”, disse o consul-geral do país em São Paulo.

A vigilância em aeroportos, portos e fronteiras terrestres foi iniciada em meados de janeiro de 2020. As restrições de vistos e viagens foram impostas posteriormente. Todos os vistos foram suspensos em 11 de março de 2020 e os vôos internacionais foram suspensos a partir de 19 de março de 2020. Durante esses meses, todos os passageiros foram colocados sob vigilância diária por meio da “Rede Integrada de Programas de Vigilância de Doenças”.

Paralelamente, a Índia trabalhou no aprimoramento da preparação médica e da capacitação para lidar com o crescimento do número de casos confirmados. Foi realizado um esforço nacional de preparação da rede de saúde para garantir a disponibilidade de leitos, leitos de isolamento, leitos para cuidados intensivos e ventiladores em hospitais dedicados Covid-19. Atualmente, temos 855 hospitais dedicados com 165 mil leitos e outras unidades de saúde com 131 mil leitos para lidar com qualquer aumento de casos.

Um número adequado de equipamentos de proteção individual (EPIs), ventiladores, medicamentos essenciais e outros itens de consumo estão sendo organizados por meio do aumento da produção e da importação. Os fabricantes nacionais atingiram a capacidade de produção de quase 250 mil EPIs e cerca de 200 mil máscaras N95 por dia, o que é suficiente para atender às exigências do país em um futuro próximo, segundo o diplomata indiano.

Foi criada uma rede de laboratórios em todo o país para facilitar o teste de amostras precoce e oportuno, com 453 laboratórios de teste funcionais nos setores público e privado. “A Índia fez mais de 1,5 milhão de testes até agora e nossa capacidade de testes diários saltou para 95 mil”, afirmou o cônsul.

O pessoal médico e paramédico do país recebeu treinamento e orientação sobre prevenção de infecções, gerenciamento clínico e protocolos. “As autoridades públicas também realizaram um enorme exercício de comunicação nas mídias sociais, canais de TV e rádio para complementar a operação de rastreamento e vigilância de contatos para evitar a transmissão”, completou ele .

“O governo anunciou um plano de estímulo econômico de US $ 266 bilhões, incluindo transferências diretas de dinheiro e medidas de segurança alimentar, para proporcionar alívio a milhões de pessoas pobres afetadas pelo bloqueio nacional. Foi lançado um enorme programa, chamado Pacote do Primeiro Ministro Garib Kalyan, para fornecer uma rede de segurança aos setores mais desfavorecidos da sociedade”, destacou Amit Mishra.

Segundo ele, suprimentos alimentares, gás de cozinha, apoio financeiro e outras formas de apoio estão sendo entregues em todo o país. Além disso, mulheres, idosos e pessoas com deficiência estão sendo atendidas prioritariamente neste programa.

O pessoal médico e paramédico recebeu orientação sobre prevenção de infecções, gerenciamento clínico e protocolos. Credito: PIB

“A distribuição de refeições aos necessitados também está sendo realizada pelas autoridades. A escala dessas medidas de alívio é enorme. De acordo com os dados mais recentes, 6,6 milhões de grãos foram distribuídos para cerca de 590 milhões de pessoas. Cerca de 200 milhões de mulheres e 81 milhões de agricultores receberam assistência financeira por transferência bancária direta e 47 milhões de cilindros de GLP foram entregues”, explicou o diplomata.

Outros desafios, como a movimentação de mão-de-obra migrante nos primeiros dias de confinamento, foram enfrentados pelo estabelecimento de mais de 27 mil campos e abrigos, informou Mishra. Com o relaxamento das restrições na maioria dos distritos, o governo está facilitando o retorno dos trabalhadores por trens especiais, informou o cônsul.

Outro fator fundamental é a tecnologia. “É um elemento muito crítico de nossa estratégia para lidar com a pandemia de Covid-19”, disse. Um aplicativo móvel chamado Aarogya Setu foi desenvolvido pelo governo da Índia para alertar as pessoas antes que elas entrem em contato com pacientes infectados. Este aplicativo já foi baixado por cerca de 100 milhões de pessoas e está desempenhando um papel crucial na luta da Índia contra o Covid-19.

Um sistema de vigilância especial foi desenvolvido para disponibilizar dados de saúde adequados nos testes, dados do aplicativo Aarogya Setu e rastreamento de contatos para profissionais e administradores de saúde. Também foram criados mecanismos para alcançar as pessoas que possuem telefones fixos por meio do Sistema Interativo de Resposta por Voz, nos idiomas locais, para obter melhores resultados.

A Índia está testando a eficácia dos medicamentos da prática medicinal do Ayurveda contra o novo coronavírus, informou o diplomata. O Ministério da Saúde está coordenando com o Ministério da AYUSH (Ayurveda, Yoga, Naturopatia, Unani, Siddha e Homeopatia) e instituições de pesquisa científica para conduzir ensaios clínicos de seus medicamentos Ayush como Yashtimadhu, Ayush-64, Ashwagandha, Guduchi e Pippali.

Esses medicamentos serão administrados a profissionais de saúde e outras pessoas que trabalham em áreas de alto risco e nas proximidades daqueles que estão infectados com COVID-19. O Ministério da AYUSH também analisa as intervenções profiláticas baseadas em Ayush, especialmente entre a população sujeita a critérios de alto risco, disse Mishra.

“Na Índia, estamos acompanhando de perto e participando da pesquisa global sobre opções de tratamento médico para a Covid-19”, afirmou. Até o momento, quatro opções de tratamento foram identificadas: Remdesivir; Lopinavir / Ritonavir; Lopinavir/Ritonavir com interferão beta-1a; e Cloroquina / Hidroxicloroquina, que estão sob consideração em ensaios clínicos internacionais para avaliar sua eficácia relativa contra o COVID-19.

Recentemente, a Índia iniciou um ensaio clínico multicêntrico chamado PLACID, a maior eficácia do plasma convalescente, para limitar as complicações associadas ao COVID-19. As empresas indianas também fazem parte de vários esforços de desenvolvimento de vacinas em todo o mundo, que estão na fase de avaliação pré-clínica ou na avaliação clínica.

As restrições de viagem para conter a pandemia de coronavírus atingiram milhares de pessoas em todo o mundo, e a Índia não foi exceção. O Ministério do Turismo do país lançou um portal (www.strandedinindia.com) para estender o apoio aos turistas estrangeiros presos na Índia. O portal funciona como uma rede de apoio a turistas estrangeiros, divulgando informações sobre os serviços que podem ser aproveitados por eles. Vários milhares de turistas utilizaram os serviços através do portal.

O Ministério das Relações Exteriores da Índia trabalha com embaixadas estrangeiras para facilitar a evacuação de seus nacionais, apesar dos desafios de tais operações durante o bloqueio, informou o diplomata. “O país facilitou a evacuação de mais de 58 mil estrangeiros de vários locais na Índia para 72 países, incluindo o Brasil”, acrescentou.

Quanto à evacuação de indianos presos no exterior, mesmo durante os estágios iniciais da crise, foram evacuados 2.465 cidadãos indianos da China (Wuhan), Irã, Japão e Itália em circunstâncias muito difíceis, em voos especialmente organizados. Outros 1609 cidadãos indianos presos foram repatriados da Malásia, Cingapura, Amsterdã e Paris com a ajuda de vôos comerciais, após a imposição das restrições de viagem. Desde a imposição de restrições de viagem pela Índia, as embaixadas e consulados indianos estão em contato com nossos cidadãos presos no exterior, estendendo a assistência necessária, acrescentou o consul.

Em 7 de maio, a Índia lançou sua maior operação de repatriamento de todos os tempos: a Missão Vande Bharat. O objetivo dessa missão é trazer de volta milhares de indianos isolados em várias partes do mundo. A evacuação será organizada por meio de aeronaves e navios, em várias fases. Na primeira semana, cerca de 15 mil pessoas retidas em 12 países serão levadas por 64 vôos especiais. A missão será gradualmente estendida a outros países. A Marinha indiana também lançou a Operação Samudra Setu, de resgate.

A Índia acredita que “a pandemia global requer uma resposta global”, destacou o consul-geral. Ao mesmo tempo em que a Índia gerencia sua resposta à pandemia, também continua comprometida em contribuir para a luta da humanidade contra essa pandemia, explicou o diplomata.

“Nosso primeiro-ministro manteve conversas telefônicas com os líderes de vários países e também usou plataformas multilaterais como SAARC, G20 e NAM (Movimento dos Países Não Alinhados) para destacar a necessidade de todas as nações trabalharem como parceiras no sentido de uma resposta global inclusiva e cooperativa contra a Covid- 19”, disse Mishra.

“Nossas políticas e ações durante a pandemia são guiadas por nosso ethos civilizacional e nossa herança que coloca a humanidade no centro da prosperidade e cooperação globais e de uma cidadania internacional responsável”, acrescentou ele.

Um aplicativo móvel chamado Aarogya Setu foi desenvolvido pelo governo da Índia para alertar as pessoas antes que elas entrem em contato com pacientes infectados

Com relação aos países vizinhos do sul da Ásia, a Índia disponibilizou sua capacidade e experiência em medicina e saúde pública para toda a região. Por iniciativa do primeiro ministro Modi, os líderes dos países da SAARC realizaram uma videoconferência em 15 de março de 2020 para coordenar sua abordagem ao Covid-19. Vários projetos foram lançados, incluindo um Fundo de Emergência COVID-19, baseado em contribuições voluntárias: a Índia contribuiu com US $ 10 milhões.

Em 26 de março de 2020, foi realizada uma videoconferência de profissionais de saúde representando todos os países da SAARC. Foi criado um grupo de contatos do SAARC no WhatsApp, com médicos dos países participantes sobre gerenciamento de pacientes, testes, vigilância de doenças etc.

A Índia usou sua força no espaço da tecnologia digital e da informação para desenvolver uma plataforma ‘COARX’ da SAARC Covid-19 para uso em todos os países deste grupo. A plataforma facilita o intercâmbio de informações e ferramentas especializadas sobre o COVID-19 entre profissionais de saúde designados na região, além de oferecer vários recursos de treinamento on-line e módulos de e-learning, cobrindo diversos tópicos relacionados ao tratamento da pandemia de coronavírus.

A Índia também oferece a países vizinhos treinamento para profissionais de saúde por meio de webinars, usando sua rede e-ITEC. O país estendeu a assistência humanitária a vários países com base em seus pedidos, incluindo medicamentos essenciais para salvar vidas, antibióticos, produtos médicos e outros equipamentos laboratoriais e hospitalares.

“Damos 10 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina (HCQ) a 26 países parceiros da vizinhança, África, Oriente Médio, Ásia Central, América do Sul e Caribe. Outros 1,34 milhão de comprimidos de paracetamol foram presenteados em 15 países”, disse Mishra.

A Índia também criou equipes de resposta rápida (RRT), que incluem médicos, enfermeiros e paramédicos (das Forças Armadas) nas as Maldivas e para o Kuwait, a pedido de seus governos. “Nossos navios estão a caminho das Maldivas, das Ilhas Maurício, Seychelles, Madagascar e Comores para fornecer alimentos, medicamentos relacionados ao Covid-19, incluindo comprimidos HCQ e medicamentos ayurvédicos especiais com equipes de assistência médica”, ressaltou o consul.

A força da indústria farmacêutica da Índia valeu-lhe a reputação de a “farmácia do mundo”. “Estamos cientes de nossa posição como provedor de segurança de saúde líquida e respondemos positivamente aos requisitos farmacêuticos de outras nações amigas. A Índia forneceu grandes volumes de medicamentos como hidroxicloroquina e paracetamol a consumidores em todo o mundo, como parte de nosso apoio à luta global contra a pandemia”, afirmou Amit Mishra. A Índia forneceu comercialmente 445 milhões de comprimidos de HCQ e 620 milhões de comprimidos de paracetamol para mais de 100 países em todo o mundo.

O Brasil é um importante parceiro estratégico da Índia, segundo o consul-geral da Índia em São Paulo. “Estamos juntos na luta contra a pandemia de coronavírus”, disse. Em 4 de abril de 2020, o primeiro-ministro Modi teve uma conversa telefônica com o presidente brasileiro. Os dois discutiram a situação global, após a propagação da pandemia de Covid-19. Eles concordaram que seus representantes permaneceriam em contato regular com relação à situação do Covid-19 e seus desafios emergentes, informou Mishra.

A pedido do presidente do Brasil, a remessa ( de 530 kg de hidroxicloroquina) para o Brasil foi liberada com prioridade, segundo informou o diplomata. “Este é um testemunho da importância que os dois países atribuem à sua relação bilateral. Esse gesto de boa vontade foi bem recebido no Brasil. A Índia também ofereceu 5 milhões de comprimidos de hidroxicloroquina ao Brasil em uma base comercial”, afirmou.

Em seu discurso à nação em 8 de abril de 2020, o presidente do Brasil agradeceu ao primeiro-ministro Modi e ao povo da Índia pela ajuda oportuna à exportação de hidroxicloroquina. O primeiro-ministro Modi também retribuiu seu agradecimento, lembrou o consul. Nas palavras do primeiro-ministro da Índia, transmitido em um de seus tweets, “nossa parceria com o Brasil está mais forte do que nunca nos tempos difíceis”.

O consulado-geral da Índia em São Paulo continua aberto para servir a comunidade, apesar dos desafios impostos pela pandemia, informou Amit Mishra. Os serviços consulares foram restringidos devido à quarentena imposta pelo estado de São Paulo, mas continua a prestar esses serviços em casos de emergência. No consulado da Índia em São Paulo e na embaixada indiana em Brasília, foi adotada a abordagem “distância social e proximidade digital”.

Para ajudar a comunidade indiana e os cidadãos indianos retidos no Brasil, o consulado-geral da Índia em São Paulo e a embaixada indiana em Brasília forneceram linhas de atendimento 24 horas (+ 55 11 994518224 e +55 61 981391127). Todas as perguntas e respostas recebidas em telefonemas ou e-mails estão sendo respondidas prontamente, destacou o consul. “Também mantemos nossas páginas de mídia social atualizadas com todos os conselhos relevantes sobre viagens e vistos”, afirmou ele.

“Com o grupo hoteleiro OYO, trabalhamos com acomodações para cidadãos. Fizemos contato com restaurantes indianos nas cidades de São Paulo, Rio e Brasília para fornecer refeições com desconto para cidadãos indianos que ficaram retidos nessas cidades. Realizamos videoconferências semanais com integrantes proeminentes da comunidade indiana no Brasil para compartilhar informações e conselhos e obter informações sobre como lidar com esta situação”, informou o consul-geral da Índia em São Paulo, Amit Mishra.

— Equipe Beco da India

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