Abhay Kumar, diplomata e escritor indiano, constrói uma ponte poética literária entre Brasil e Índia

Abhay Kumar, ao centro, no encontro Chá com Letras

Autor de A Profecia de Brasília e  de The Alphabets of Latin America, o diplomata indiano Abhay Kumar lançou em português uma antologia de poemas indianos publicados em 3 mil anos de história

Por Florência Costa

Clarice Lispector (1920-1977) inspirou o diplomata e poeta indiano Abhay Kumar a escrever o livro A Profecia de Brasília (Coletivo Editorial), em 2018, contou o próprio autor, em entrevista exclusiva para o BECO DA ÍNDIA. Abhay Kumar, que serviu como titular do segundo cargo da Embaixada da Índia em Brasília por três anos (2016-2019). Abhay Kumar, hoje embaixador da Índia em Madagascar,  reuniu nesse livro seus poemas sobre a capital brasileira. No final dessa entrevista, o poema Brasília.

“Aterrissei em Brasília na primeira hora de 12 de janeiro de 2016. A visão do solo ainda do céu ofuscou meus olhos. Quando acordei, Brasília era toda branca, com céu azul claro e muitas árvores verdes, cheias de pássaros cantando.”, lembra ele.

Ele lançou também, ainda enquanto viveu em Brasília, em 2018, 100 Grandes Poemas da Índia, uma coletânea em português, que traz pela primeira vez mais de 3 mil  anos de poesia indiana, escritas em 28 línguas indianas, para o mundo de língua lusófona.

Abhay Kumar diz que sua obra favorita da literatura brasileira é Memórias Póstumas de Bras Cubas, de Machado de Assis. Seu último livro, em 2020, nasceu também de sua rica experiência no nosso continente: The Alphabets of Latin America (Alfabetos da América Latina), uma coleção de poemas que ele escreveu a partir de viagens realizadas na região. Segundo o poeta cubano Víctor Rodríguez Núñez , o The Alphabets of Latin America  “é um poema de amor  que nos honra como sociedade e cultura”. Confira aqui a entrevista de Abhay Kumar ao BECO DA ÍNDIA:

Abhay Kumar. Credito: Arquivo pessoal

BECO DA ÍNDIA (BI)Clarice Lispector, uma das maiores escritoras brasileiras, o inspirou a escrever “A Profecia de Brasília”. Como foi esse processo? 

ABHAY KUMAR (A.K) –  Quando eu cheguei em Brasília, comecei a pesquisar a literatura brasileira: poemas, contos, ensaios, novelas. Encontrei um ensaio de Clarice Lispector escrito em 1974, após a sua curta viagem do Rio de Janeiro a Brasília, para dar uma palestra. O ensaio abriu meus olhos e após lê-lo eu começei a escrever o primeiro rascunho do meu poema Brasília, no qual cada linha começa com “Brasília é…”, inspirado pelas linhas escritas por Lispector: “Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado”…

BIQual é o seu autor brasileiro favorito?

A.K – Tenho vários, mas devo citar Machado de Assis e sua obra  Memórias Póstumas de Bras Cubas como o meu preferido de todos. Eu adoro os contos de Clarice Lispector e os poemas de todos os 60 poetas brasileiros de uma antologia que publicamos.

BI – O Sr. também lançou enquanto estava on Brasil a antologia 100 Grandes Poemas da Índia.  É uma seleção em português que abraça poesias escritas em 28 diferentes línguas indianas em mais de 3 mil anos. Como aproximar mais culturalmente Brasil e Índia,  esses dois países emergentes tão distantes geograficamente?

A.K – Meu objetivo ao editar os 100 Grandes Poemas da Índia foi fazer uma apresentação da riqueza da poesia indiana. Os poemas foram primeiro traduzidos para o português e o livro foi publicado pela Universidade de São Paulo (USP). Shelly Bhoil, uma poeta e acadêmica indiana que vive em São Paulo, me ajudou a encontrar poetas brasileiros que poderiam fazer a tradução e com a conexão com a USP. Eu escolhi poemas que me impactaram na primeira leitura e continuaram voltando à minha mente após dias, meses e anos. Poemas escritos até mesmo 3 mil anos atrás tem a mesma força e falam conosco da mesma forma que poemas atuais. Esse é o poder da grande poesia. O livro 100 Grande Poemas da Índia pode ser encontrado no website da USP para download gratuito:

Cecília Meireles  escreveu em seu poema ‘Elegia sobre a morte de Gandhi”:  “O vento da tarde vem e vai da Índia ao Brasil, e não se cansa”. Ela viajou para a Índia em 1953 e escreveu o livro Poemas Escritos na Índia. Ela construiu uma ponte literária com a Índia, aproximando o meu país da comunidade literária brasileira.  A embaixada brasileira em Nova Delhi publicou uma edição bilingue de seus 71 poemas traduzidos do português para o inglês pelos professores Dilip Loundo e Rita Sanyal, em 2003, para celebrar os 50 anos da viagem histórica de Cecília Meireles à Índia. A telenovela Caminho das Índias, transmitida em 2009, trouxe vislumbres da cultura indiana aos lares brasileiros. Em 2012 foi lançado no Brasil o livro Os Indianos (Editora Contexto, de Florência Costa).  Gilberto Gil gravou uma ópera sobre Krishna, baseada no poema Gita Govinda, de Jayadeva, em 2017. A embaixada indiana em Brasília publicou em 2018 o livro Uma Arvore em Flor e outros Contos da Índia, sob minha supervisão. É uma coleção de 77 contos folclóricos indianos. A Índia já foi apresentada como tema por escolas de samba do Rio de Janeiro algumas vezes. O grupo carnavalesco Filhos de Gandhy, de Salvador, abraça os valores de Mahatma Gandhi. O ioga é cada vez mais popular no Brasil. A embaixada indiana em Brasília oferece aulas regulares de ioga. Durante a minha estadia em Brasília, pelo menos três restaurantes indianos abriram naquela cidade. Atores brasileiros trabalham na indústria cinematográfica indiana. Há então alguns exemplos de pontes culturais e literárias entre a Índia e o Brasil. Eu tenho certeza de que muitos mais projetos virão.

BI – Do que se trata o seu último livro The Alphabets of Latin America?

A.KEsse livro contém poemas sobre a Amazônia, o Carnaval no Rio, a Avenida Paulista de São Paulo, Salvador,  Ouro Preto, Manaus, o Cristo Redentor, Paraty, entre outros lugares. Eu escrevi durante as minhas viagens pela América Latina entre os anos de 2016 e 2019. Os poemas estão em ordem alfabética e  levam o leitor  a uma viagem a um dos continentes mais fascinantes do ponto de vista cultural e geográfico. Um continente conhecido pelas suas lendárias civilizações Maya e Inca; pelo Tango, pelo Samba, pelos maiores carnavais do mundo; por grandes escritores como Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marques, Ruben Dario, Pablo Neruda,  Gabriela Mistral, Cesare Vallejo, Octavio Paz; por renomados artistas como Frida Kahlo, Fernando Botero, entre outros; por cenários incríveis como os do Deserto do Atacama, Machu Picchu, as Cataratas do Iguaçu; por cidades magníficas como Buenos Aires, Rio de Janeiro, México, Lima etc.

BI – Quando o Sr. estava no Brasil , criou o programa literário “Chá com letras”. Foi uma série de discussões com poetas e escritores brasileiros. Como foi essa experiência?

A.K – Quando eu cheguei em Brasília, em 2016, tive a ideia de começar um programa literário similar ao programa que eu havia criado em Katmandu (Nepal), batizado de “Poemandu”, entre 2012 e 2015. Entre 2016 e 2019 houve 31 encontros desse programa, batizado no Brasil de de  Chá com Letras, dos quais centenas de poetas e escritores brasileiros e indianos participaram. Tornou-se um programa popular na comunidade literária e entre estudantes da Universidade de Brasília (UNB). O projeto também me ajudou a interagir com a comunidade literária do Brasil e prover uma plataforma para poetas e escritores indianos que visitaram o Brasil durante o Festival da Índia, em setembro de 2017. Isso também me ajudou a conhecer excelentes poetas braisleiros que me inspiraram a aprender Português e a traduzir  poemas para o inglês e editar, em 2019, a antologia de poesias brasileiras em inglês e português New Brazilian Poems: A Bilingual Anthology of Brazilian Poetry after Elizabeth Bishop. Foi resultado da minha tradução de 60 poetas brasileiros contemporâneos.

BRASÍLIA (Abhay Kumar)

Brasília é bastante branca
Brasília é terra rubra em manta
Brasília é o diáfano véu sobre a luz que abrilhanta
Brasília é um colar de pérolas que à noite encanta
Brasília é um manjar turco exótico que me levanta
Brasília é uma cobra prestes a devorar sua janta
Brasília é um vilarejo se passando por cidade
Brasília é uma expressão na geometria da felicidade
Brasília é a cidade invisível de Ítalo Calvino em tenra idade
Brasília é uma profecia de um certo Dom
Brasília é um poema inscrito em pedra, e bom
Brasília é a canção de Carlos Drummond
Brasília é o diamante na coroa
Brasília é um avião imenso que não voa
Brasília é uma vila de Amauri submersa à toa
Brasília é a Clarice Lispector sonâmbula sobre a água
Brasília é o açaí na sobremesa negra, árdua
Brasília é a perfeição do tijolo e da argamassa na frágua.
Brasília é um pedaço de torta espacial
Brasília é uma ilha de fantasia num lago irreal
Brasília é uma noite dominicana frugal
Brasília é a última utopia
Brasília é para a Sylvia Plath uma distopia
Brasília é uma paisagem de ectopia
Brasília é um oásis de pássaros migratórios
Brasília é o oráculo de vocábulos premonitórios
Brasília é uma página de um livro obrigatório
Brasília é uma miragem instável no deserto
Brasília é uma visão pálida de um ponto incerto
Brasília é um portal que ainda será aberto

Traduzido por Ana Paula Arendt

BRASILIA

Brasilia is mostly white
Brasilia is red laterite
Brasilia is diaphanous gossamer filled with light
Brasilia is a string of shining pearls at night
Brasilia is an exotic Turkish delight
Brasilia is a coiled serpent ready to bite
Brasilia is a village passing as a city
Brasilia is an expression in supernatural geometry
Brasilia is Italo Calvino’s invisible city
Brasilia is a prophecy of Dom (Bosco)
Brasilia is a poem carved in stone
Brasilia is a song of Carlos Drummond (de Andrade)
Brasilia is a diamond in the crown
Brasilia is a giant airplane on the ground
Brasilia is an Amauri village drowned
Brasilia is Clarice Lispector sleep-walking on water
Brasilia is black Acai palm dessert
Brasilia is perfection in brick and mortar
Brasilia is a piece of space cake
Brasilia is a fantasy island in the lake
Brasilia is a Dominican night shake
Brasilia is the last utopia
Brasilia is Sylvia Plath’s dystopia
Brasilia is a landscape ectopia
Brasilia is an oasis of migratory birds
Brasilia is an oracle’s prophetic words
Brasilia is a page from Harry Potter
Brasilia is a shifting mirage in the desert
Brasilia is a vision gone pale, blurred Brasilia is a nail yet to be hammered.

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