Amor a conta-gotas: uma receita da Índia moderna

Credito: IMDB

Domingão em casa, sem dicas do que assistir no Netflix? Se você gosta de histórias intimistas e se interessa pela Índia, tente o “Coisas da Vida” (“Little Things”). Bem diferente do amor retratado nos dramalhões de Bollywood, esta série é uma celebração do amor construído pelos pequenos detalhes da vida.

O cotidiano de Dhruv Sehgal e Kavya Kulkarni, dois jovens de 20 e poucos anos que moram juntos na megacidade de Mumbai: seus micro-conflitos em casa e no trabalho, como eles se divertem, como lidam com suas famílias, como planejam seu futuro, a importância da amizade como alimento para o amor, o sentimento de inveja por ver a cida social dos amigos bombando no Instagram e no Facebook. São vários temas ligados ao cotidiano.

Nada de crimes, mistérios ou corrida de perseguição de carros, essa série captura um retrato intimista, realista e leve, das relações pessoais na bolha da classe média alta da Índia moderna.

Seus idealizadores não caíram na tentação de produzir capítulos com iscas para atrair o telespectador. É uma história de amor indiana contemporânea e suave.

O papel de Dhruv é desempenhado pelo ator Dhruv Sehgal, que também é o roteirista da série. Kavita é desempanhada pela atriz Mithila Palkar. A série estreou no Youtube em 2016 e fez tanto sucesso que acabou publicada em livro (pela Penguim Random House), no ano seguinte. Foi comprada pelo Netflix, que exibiu a segunda temporada, com oito episódios, em outubro de 2018. A terceira temporada foi em novembro do ano passado.

Dhruv e Kavya lutam para se ajustar à vida independente em uma sociedade tradicional. Não são casados, mas a série trata isso com naturalidade apesar de na Índia, o país do casamento,  esse tipo de união não ser comum até hoje. Mas nos grandes centros urbanos há cada vez mais jovens casais morando juntos.

“Coisas da Vida” é sobre uma bolha da sociedade indiana, real, mas é um mundo microscópico. Quem acredita que a Índia seja aquele esteriótipo já arraigado em boa parte do mundo ocidental, vai se surpreender. Em “Coisas da Vida” não há espaço para gurus, encantadores de serpentes, ou dramas de casamentos arranjados. É a “Vida como ela é” na Índia urbanda de classe média alta.

Veja aqui o trailler do “Coisas da Vida”:

E, boa parte da segunda temporada, a moça faz o papel do chefe da família no apartamento moderninho e de bom gosto em Powai, bairro no subúrbio de Mumbai construído para abrigar a nova Índia que trabalha em grandes corporações, já que há muitas empresas lá. Kavya, confiante e independente, é quem ganha mais, trabalha muito numa agência de criação de publicidade, e chega tarde em casa, esgotada, se sente atraída por um rapaz que encontra em uma viagem de trabalho.

Eles descutem mudanças de carreira no meio de um vinhedo no interior do estado e Maharashtra ( do qual Mumbai é a capital), após terem participado de uma sessão de experimentação de vinhos (sim, a Índia começou a produzir vinhos).

Dhruv,  inseguro, está infeliz no trabalho. Chega cedo em casa e assiste o campeonato europeu de futebol enquanto devora um ensopado de careiro que pede num aplicativo. Um amigo de escola o visita em Mumbai, mas Dhruv percebe que com o tempo as pessoas não se encaixam mais na vida dos outros: seu amigo é um homofóbico machista e Dhruv sente que ambos pertencem hoje a planetas diferentes.

Ele acaba deixando seu emprego e muda de Mumbai para Bangalore para fazer  seu doutorado em Engenharia. “‘Mazaa nahi aa raha tha, yaar” (“ Eu não estava feliz, cara”), explica a ela. Bem diferente das gerações anteriores, ambos se tratam o tempo todo com gírias como “yaar” (do Hindi, “cara”), ou “dude” (do inglês, “cara”).

A série ganhou o prêmio MTV-IWMBuzz Digital de 2019  como melhor programa jovem.  

— Equipe Beco da Índia

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