Bhangra e Bollywood: a história da paixão de uma família indo-brasileira pela cultura indiana

Juily, Parnad, Elizaide, Disha e Raju. Crédito: Arquivo pessoal

Se há um exemplo de como a mistura indiana-brasileira é afinada, ele está simbolizado em duas irmãs que vivem em São Paulo: Juily e Disha Malani. Elas são filhas de mãe brasileira, a funcionária pública federal aposentada Elizaide Seixas Manghirmalani,  e de pai indiano, o empresário Raju Gangaram Manghirmalani, que atua no ramo da importação. Elas costumam encurtar o sobrenome para facilitar a compreensão no Brasil.

Juily e Disha respiram cultura indiana na capital financeira do Brasil. Elas são especialmente apaixonadas pelo Bhangra, a dança folclórica do Punjab, e por Bollywood, a dança pop e a indústria cinematográfica mais famosa da Índia. Ambas participaram de uma live promovida pelo BECO DA ÍNDIA no Instagram.

As duas nasceram e passaram parte da vida em Manaus, onde há uma significativa comunidade de origem indiana. Formada em audiovisual, Juily Malani trabalha com cinema brasileiro mas debruçou-se sobre o cinema da diáspora indiana em seu trabalho de conclusão de curso na universidade e no mestrado.

Casamento de Raju e Elizaide na Índia.
Crédito: Arquivo pessoal

Disha Malani, que estudou comércio exterior, já teve loja online de roupas indianas, mas depois passou a dedicar-se exclusivamente ao ensino de danças indianas: Bhangra e Bollywood.

Raju, o pai delas, nasceu em Mumbai, formou-se em engenharia na Índia e veio para o Brasil com 23 anos de idade, em 1983. “Meu pai veio com um grupo de indianos, quase todo sindhs”, contou Disha.

Ele é de uma família Hindu originária de Sindh – região que hoje fica no Paquistão. Em 1947, durante a Independência –  quando ocorreu o doloroso processo de partição da Índia que resultou na criação do Paquistão -,  os pais de Raju foram obrigados a deixar a região de Sindh e se estabelecer na Índia.

“Foi dureza. Desde que éramos pequenas ouvimos as histórias da nossa família, que são intensas. São histórias de pessoas que deixam as suas casas”, contou Juily. “Há uma cultura muito forte na comunidade,  de querer sempre casar com sindhs. É uma cultura muito antiga, há muitas regras e tradições que se deseja manter, até mesmo a língua, o sindh”, explicou. As filhas contam que a família de Raju sempre deu muita importância à educação e aos conhecimentos filosóficos.

O jovem engenheiro Raju chegou na Zona Franca de Manaus, onde trabalhou para áreas de tecnologia, mas rapidamente se sobressaiu pelo fato de falar quatro línguas e por ter um bom conhecimento sobre comércio exterior.

 A história de como Raju conheceu Elizaide Seixas –  a mãe de Juily e Disha, e ainda do irmão caçula delas, Parnad –  parece ter saído de um filme e Bollywood. “O melhor amigo do meu pai namorava a minha tia, irmã mais velha da minha mãe. Eles saíam muito para tomar cerveja, mas como minha tia não queria ir sozinha, chamava minha mãe para fazer companhia”, contou Disha. “No final, o namoro da minha tia com o amigo do meu pai não deu certo. Mas aí começou o namoro da minha mãe com o meu pai”, completou Disha, rindo. 

Enquanto isso, a mãe de Raju, que vivia na Índia, se comunicava com ele constantemente lembrando que estava na hora dele casar e que já havia candidatas na Índia, pelo tradicional sistema de casamento arranjado. “Mas aí a minha mãe pediu meu pai em casamento. Minha familia é bem feminista desde semrpre”, disse Juily, orgulhosa.

Os jovens Raju e Elizaide no Taj Mahal, na Índia. Crédito: Arquivo pessoal

Raju aceitou e levou Elizaide para a Índia, onde eles casaram pelo rito Hinduísta. “Minha avó veio morar por um tempo com a gente aqui, já estávamos em São Paulo, para onde nos mudamos em 1996.  O meu pai é o mais velho e tradicionalmente é o filho mais velho que cuida dos pais na Índia. Só que é muito complexo, uma senhora de idade que não falava português, minha avó se assustava de ir para a rua e ver pessoas tão diferentes. Depois, ela foi depois morar na Nova Zelandia, onde viveu com um tio nosso e ficou lá até o final da vida dela”, contou Juily.

Em 2011 e em 2012 elas visitaram a Índia e puderem experimentar o famoso choque cultural. “É impresssionante perceber que há universos tão diferentes no mesmo planeta. Você chega lá e parece que vive uma outra realidade num nivel absurdo. E isso foi o que mais me espantou. O aroma do lugar é diferente, as cores são diferentes, o barullho é diferente, o cheiro da comida é diferente. Fomos para Mumbai, Delhi e outras ciadades, como Udaipur e Pune”, recordou Juily.

A cidade que ela mais gostou foi justamente Mumbai, a terra de seu pai. Em 2012, elas foram novamente para a Índia, como convidadas do casamento de um primo, filho da irmã mais nova de Raju. “A gente estranhou muito a relação com a comida, o fato de ter que comer toda hora e se não comer é uma desfeita”, lembrou Disha.

Mas elas estavam lá não apenas como turistas, e sim como parte de uma família indiana da diáspora. Raju aproveitou a viagem para mostrar aos filhos onde nasceu , onde estudou , onde jogava futebol. “Nossos tios contavam histórias do passado e conhecemos todos os parentes, fomos levadas às casas deles todos”, contou Juily. Afinal, na Índia a família é a maior instituição.

“A gente tinha um papel lá, e não era só como turistas. Nascemos no Brasil, crescemos aqui, tivemos influência da cultura indiana, das festas, das comidas, das roupas. Mas lá a gente viu de perto como é a vida na Índia, como se comportar, como é importante visitar todos os parentes, como é o jeito de lidar com as gerações”, disse Juily.

Os costumes que elas não compreendiam na Índia, os familiares indianos pacientemente explicavam. “Há aspectos semelhantes entre o Brasil e a Índia. Afinal, somos países emergentes”, concluiu Juily.

Família Manghirmalani durante o Festival Holi em Sao Paulo. Crédito: Arquivo pessoal

Um dos aspectos que chamou a atenção foi a separação dos gêneros. “Aqui a gente se sente à vontade para interargir com homens. Lá tem que ter um certo distanciamento. Quando se é criança não há essa separação, mas a partir de uma certa idade tem”, observou Juily, lembrando que em Manaus a sua família sempre manteve a amizade com amigos indianos do pai, uma convivência bastante próxima.

Como a mãe Elizaide é de Manaus, há uma mistura cultural interessante: indiana, manauara e paulista, já que a família mudou-se para São Paulo em meados dos anos 90.

Após as duas viagens à Índia, onde conheceram também os parentes que vivem em outros lugares do mundo, as duas passaram a manter contato frequente com os primos. “Na época em que o meu pai era jovem, não tinha internet. Então, manter o contato com a família na Índia era bem mais difícil naqueles tempos. Ele tinha que mandar carta ou telefonar. Mas hoje, nós temos as redes sociais e a internet. Conversamos sempre com os parentes, fazemos video chamadas regularmente”, disse Juily.

Qual seria o balanço delas sobre os aspectos negativos e positivos da cultura indiana ?

Disha diz que a única parte que considerou negativa é o machismo da sociedade inaina. “Isso me incomoda. Mas de resto eu gosto de tudo: da música, das danças, da comida e da parte espiritual. É um país muito rico e temos muito a aprender com a Índia”, disse.

Juily ressalta que vivemos em uma sociedade patriarcal também no Brasil . “No Brasil isso é naturalizado ou escondido. Na Índia a violência contra a mulher virou um tema muito falado”, afirmou. Ela acredita que a cultura brasileira não abraça a diversidade tão bem. “Nós somos muito próximos dos EUA, temos uma lógica eurocêntrica, sempre olhamos para o diferente querendo apontar dedos”, constata.

Em relação à Índia, Juily concorda que há aspectos da cultura indiana que também incomodam. “Se o Brasil é racista, na Índia tem a questão das castas, por exemplo”, observou. Para ela, há aspectos incríveis nas duas culturas, mas ela diz que gostaria de ver, tanto na Índia quanto no Brasil, o aumento da liberdade em questões de gênero, da mulher e da sexualidade.

Juile, Elizaide e Disha no Bloco Bollywood. Crédito: Arquivo pessoal

Quando Juily e Disha voltaram das viagens que fizeram à Índia, passaram a mergulhar mais ainda na cultura indiana, frequentando o Centro Cultural Swami Vivekananda, ligado ao consulado-geral da Índia em São Paulo, que oferece aulas de danças e ioga, entre outras atividades.

Disha hoje dá aulas de dança Bhangra e Bollywood. O Bhangra é um estilo de dança da região do Punjab, próxima do Paquistão. “Essa dança foi criada inicialmente devido à festividade do Baisaki, relacionada à colheita “, explica Disha. Ela diz que é um estilo de dança muito energético,  que mexe basicamente os braços e as pernas. Não é tão fácil porque a pessoa deve ser capaz de pular muito, chutar, agachar. Mas a dança Bollywood já é bem mais fácil. Durante a pandemia, Disha passou a dar aulas online de Bollywood e de Bhangra e é possível achá-la no Instagram na página “Feels Like India”. Ela também dá aulas de Bollywood dance no Núcleo Mandala, no bairro da Liberdade, em São Paulo.

“O legal de dar aulas de dança é que as alunas também se interessam pela cultura indiana e me perguntam muitas coisas, sobre música, sobre roupas, sobre os deuses”, disse Disha, que já teve uma loja de roupas indianas também chamada “Feels like India”. Ela costumava gravar vídeos dançando com as roupas e aí percebeu que as pessoas adoravam aprender. Foi uma questão de tempo migrar da loja para as aulas de dança.

Disha sempre desfila no Bloco Bollywood, o carnaval de rua organizado pela comunidade indiana de São Paulo, que toca músicas dos filmes de Bollywood. “Durante os desfiles do bloco, as pessoas passaram a olhar para mim como uma referência para o Bhangra e aí eu comecei a estudar mais sobre esse estilo de dança”, conta.

Juily também desfila no Bloco Bollywood desde o seu início, em 2016. No caso dela, que estuda e trabalha com audiovisual, o interesse maior é o cinema. Juily explica que Bollywood, como industria cinematográfica, é uma dos maiores fontes de entretenimento e de cultura dentro Índia e fora também, na  diáspora indiana espalhada por vários países.

 A dança e o cinema sempre andaram de mãos dadas na Índia, observou Juily, que comecçou a estudar cinema indiano na faculdade, a partir de 2011, após ter voltado da viagem à Índia. “Quando a gente voltou para o Brasil, fui atrás de aulas de dança para conhecer melhor. Encontramos a Iara Ananda, nossa primeira professora de Bollywood dance”, contou. Logo depois foi aberto o Centro Cultural da Índia em São Paulo e Juily e Disha se inscreveram para aprender o estilo de dança Kathak, com a professora indiana Gyanshree Karahe.

“Foi assim que a dança entrou na minha vida, e depois a música, o bloco Bollywood. Uma coisa foi somando com a outra nesse universo indiano. Mas o cinema tem um carater mais acadêmico na minha vida. A dança é mais diversão”, afirmou Juily, cuja tese de mestrado defendido na Universidade de São Carlos foi sobre o cinema da diretora Deepa Mehta, que estudou na Índia, mas depois foi morar no Canadá.

Juily e Disha no Bloco Bollywood. Crédito: Arquivo pessoal

Deepa Mehta faz cinema arte, alternativo, com filmes muito críticos. “Tanto o meu mestrado, quanto o meu trabalho de conclusao de curso (TCC) foram sobre cinema indiano e a cultura indiana nos filmes. No TCC eu estudei os personagens da diáspora e no mestrado,  o cinema da diáspora indiana” disse.

Recentemente as duas irmãs gravaram um vídeo indicando filmes indianos para o público brasileiro que quer começar a se aventurar nesse estilo. Disha sugere “Gujan Saxena: A memina da guerra de Kargil” (2020), disponível na plataforma Netflix.

“Ela foi a primeira mulher na Força Aérea Indiana. Diferente de outros filmes de Bollywood,  que demoram um pouco para engatar a história, esse filme parece mais com produções hollywoodianas. A história te prende desde o início”, disse.

Juily destacou que a Índia tem vários vertentes de cinema, com filmes produzidos em diversas línguas e vários gêneros, drama, ação, comédia etc. Ela aconselha os iniciantes a pesquisar as opções de filmes indianos no catálogo do Netflix, que tem uma boa variedade, além das séries indianas.

Para quem está curioso com os filmes clássicos de Bollywood, Juily sugere  “Kuch Kuch Hota Hai” (1998) e “Kabhi Khushi Kabhie Gham (2001). Entre os filmes mais descolados e modernos, ela cita  “Dear Zindagi” (2016). E para quem gosta de obras mais politizadas de Bollywood, Juily indica os filmes do diretor e ator Aamir Khan.

Florência Costa

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