Como a ‘indestrutível Maggie’ fotografou Gandhi e os momentos mais dramáticos da independência indiana

Mahatma Gandhi fotografado por Margaret Bourke White

Margareth Bourke-White, a primeira mulher a ser correspondente de Guerra, foi resposnável por algumas das mais icônicas fotos de Mahatma Gandhi e da Partição da Índia

Florência Costa

Pioneira, ousada, independente, a “indestrutível Maggie” foi uma das mais importantantes testemunhas da dramática partição da Índia, durante o processo de independência, em 1947. Trata-se da  fotógrafa norte-americana Margareth Bourke-White (1904-1971), que capturou com suas lentes parte da história do século XX, desde a vida na União Soviética dos anos 30, passando pelo front da Segunda Guerra Mundial, até a Índia do fim da década de 40. Algumas de suas fotos que resultaram de sua cobertura na Índia são documentos preciosos, como as imagens de refugiados hindus, muçulmanos e sikhs durante o processo de divisão da Índia que resultou na criação do Paquistão.

A lendária Margareth Bourke-White trabalhou na Índia para a revista Life. Cerca de 10 milhões de pessoas  foram obrigadas a cruzar as fronteiras da Índia na maior migração forçada da História que resultou em cerca de 2 milhões de mortos, vítimas de conflitos religiosos entre hindus, muçulmanos e sikhs. Uma das fotos mais marcantes é a de um senhor sikh (o Sikhismo foi  criado no século 16 na Índia) carregando a sua esposa doente na fuga. Ela registrou ainda o horror dos corpos e dos vilarejos destruídos durante os conflitos.

Margareth Bourke-White – a primeira mulher fotógrafa  a cobrir guerras –  chegou na Índia em 1946 e logo procurou capturar a imagem do maior personagem daquele momento histórico: Mahatma Gandhi, que liderava o movimento pacífico em busca da independência. Uma assistente de Gandhi pediu à fotógrafa que aprendesse a usara roca, ou Charkha, símbolo da indendência, por representar a produção de tecidos da Índia em contraposição aos tecidos britânicos. Margareth respondeu lembrando que na verdade seu objetivo era fotografar Gandhi tecendo no Charkha. E ela de fato clicou uma foto icônica, talvez a imagem mais conhecida do líder pacifista.

Ela também ficou famosa por fotografar Mahatma Gandhi, pouco antes dele morrer assassinado em 1948. Sessenta e seis fotos de Margareth Bourke-White tiradas durante o processo de partição foram incluídas no livro Train to Pakistan, de Kushwant Singh, lançado em 1956, uma das grande obras de ficção sobre aquele momento dramático.

A fotógrafa também registrou imagens preciosas de outro grande líder indiano: B. R. Ambedkar (1891-1956), conhecido como pai dos Dalits (ou oprimidos), a categoria que se situa na base da pirâmide de castas. Ambedkar foi o mais importante líder dalit que a Índia já teve. Ele lutou por seus direitos e presidiu os trabalhos da Constituição indiana que resultou na criação de cotas para Dalits no serviço público e nas universidades. Ambedkar, o primeiro Dalit a conseguir estudar no exterior (fez mestrado e doutorado nos EUA e na Inglaterra), foi um grande jurista e chegou a ocupar o cargo de Ministro da Justiça no primeiro governo da Índia Independente.

Veja esse documentário sobre a vida da fotógrafa, do Coletivo Amarilis

O realismo das fotos de Margareth Bourke-White revelam ao mesmo tempo atrocidade e humanidade. Essas imagens podem ser vistas no livro Witness to Life and Freedom: Margaret Bourke-White in India and Pakistan, de Pramod Kapoor, com prefácio de Gopalkrishna Gandhi (2013), neto de Gandhi, uma compilação do que há de melhor em seu trabalho referente ao subcontinente indiano.  A própria fotógrafa escreveu em 1963 uma autobiografia que foi um sucesso de vendas: Portait of Myself.

Livro Witness to Life and Freedom, de Pramod Kapoor

Essa mulher incrível ganhou um apelido à altura: “a indestrutível Maggie”, já que ela enfrentou vários momentos extremamente perigosos e saiu ilesa, como estar em um helicóptero que pegou fogo, em um barco que foi atingido por um torpedo, e ter testemunhado bombardeios alemães em Moscou. Alguns dos momentos mais dramáticos do século XX foram resgistrados por sua câmera.  Ela também se notabilizou pelas fotos dos dramas sociais da grande depressão dos EUA em 1929, dos campos de concentração nazistas, e registrou as imagens de Josehph Stalin e Winston Churchill.

Sua vida foi tão cinematográfica que ela foi contada em um filme chamado Double Exposure: The Story of Margareth Bourke-White (1989), com a atriz Farrah Fawcett encarnando a grande fotógrafa. No filme Gandhi (1982), de Richard Attenborough, Margareth Bourke-White foi representada pela atriz Candice Bergen.

Veja aqui um filme sobre a vida de Margareth Bourke-White, dublado em espanhol

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