Como o futebol simbolizou a resistência pacífica de Mahatma Gandhi e a luta anti-colonial dos indianos

Gandhi é o sexto à esquerda da primeira fileira ao alto no time. Crédito: Facebook

Hoje a Índia chora a morte de Maradona, mas no início do século 20 o futebol já funcionava como forte simbologia política, com Gandhi criando times de futebol em três cidades na África do Sul, chamados  “Passive Resisters”

Florência Costa

Enquanto a Índia chora a morta de Diego Maradona como uma divindade da bola, a história da relação entre o futebol e a luta anti-colonialista no país é revisitada. Ícone maior da independência da Índia, Mahatma Gandhi certamente seria um fã do craque argentino se estivesse vivo. O líder pacifista indiano era um apaixonado pelo futebol, mais até do que pelo críquete (o esporte nacional da Índia).

Gandhi e seu time de futebol. Crédito: Fifa

Nas duas décadas em que viveu na África do Sul (1893-1915) como advogado e ativista social, Gandhi fundou em três cidades diferentes times de futebol chamados “Passive Resisters”, nome que faz referência à sua filosofia política do Satyagraha (a força da verdade), o método de resistência pacífica na luta contra o Império britânico que na África do Sul  representou também a luta contra a discriminação racial e injustiça. O dinheiro arrecadado com os jogos era usado para apoiar as famílias dos ativistas anti-racistas e anti-colonialistas que muitas vezes íam presos.

No imaginário dos indianos que viveram aqueles anos de luta nacionalista, o futebol foi um símbolo importante de união e resistência. Na África do Sul, Gandhi – que teve contato com o futebol pela primeira vez em Londres, onde estudou _ usou esse esporte para propagar a Satyagraha e para aperfeiçoar suas habilidade como negociador e ativista.

Gandhi voltou para a Índia em 1914, três anos após um dos jogos mais icônicos da história do futebol indiano: a vitória do Mohun Bagan, fundado pela elite indiana da então Calcutá (atual cidade de Kolkota) sobre o East Yorkshire, formado por um regimento britânico.

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O desembarque do futebol na Índia — assim como o do críquete – se deu, no fim do século 19, por meio do Raj Britânico, o poder colonial que criou times em várias cidades da Índia. Mas no início, os indianos eram proibidos de jogar.

O primeiro jogo realizado na Índia foi entre o Calcuta Club of Civilians e o The Gentleman of Barrackpore,  em 1854. A Associação Indiana de Futebol foi criada em Calcutá em 1893, mas não havia nenhum indiano na sua diretoria até 1930. Calcutá foi a capital do Raj Britânico até 1911, justamente o ano em que se deu essa famosa partida.

A vitória do Mohun Bagan —  time criado pela elite indiana de Bengala Ocidental em 1889 — sobre o East Yorkshire e a conquista do IFA Shield foi acompanhada por uma torcida de 60 mil indianos em êxtase que cantavam uma famosa música nacionalista: Vande Mataram. O time jogou como era do costume indiano: descalço. Foi a primeira vez que jogadores indianos venceram um time britânico.

O time de Mohun Bagan no início do século 20. Crédito: Mohun Bagan F.C.

O Mohun Bagan foi criado para desenvolver o espírito competitivo e de luta dos jovens da elite indiana. Não eram admitidos na equipe jovens que fossem reprovados na escola ou na faculdade. A histórica vitória do Mohun Bagan fortaleceu o amor dos bengaleses pelo futebol. Foi a vitória do oprimido sobre o opressor, uma vitória que desafiou os preconceitos europeus de superioridade racial sobre os asiáticos.

O movimento nacionalista indiano era mais forte em Bengala Ocidental, cuja capital era Calcutá. Hoje, três estados da Índia concentram a paixão por esse esporte, com seus torcedores dividindo-se entre as seleções brasileira e argentina durante as copas do mundo. Além de Bengala Ocidental, Kerala e Goa.

A seleção da Índia nunca jogou em uma Copa do Mundo, mas foi convidada a participar em 1950, três anos após a independência, quando o evento foi realizado no Brasil. Os indianos, no entanto, foram obrigados a declinar do convite porque só jogavam sem chuteiras, ítem obrigatório.  Os anos 50 foram o período de ouro do futebol indiano, quando o time do país era considerado o melhor da Ásia.

A popularidade do futebol em Kerala, estado indiano do Sul, cresceu nos anos 60, 70 e 80, justamente quando a seleção brasileira e a argentina foram protagonistas de grandes momentos, com as atuações geniais de Pelé e Maradona. Isso explica o fato de os torcedores de Kerala também apoiarem as duas seleções. Em Bengala Ocidental e em Goa é a mesma coisa: seus torcedores vestem camisetas amarelas do Brasil ou azuis claras da Argentina, e chegam mesmo a brigar nas ruas. Há uma identificação com os times não europeus.

Além de Gandhi, o maior ícone da espiritualidade indiana, Swami Vivekananda (1863-1902), resposonsável pela divulgação do Hinduismo no mundo ocidental no final do século 19, era outro entusiasta do futebol. Ele chegou a dizer certa vez: “Você estará próximo do céu se jogar futebol”.

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