Um fotógrafo que se apaixonou pelo Ioga

Michael O’Neills está em seu escritório, em meio a caixas. Aos poucos, ele desenterra fotos que fez no passado: de Orson Welles, Martin Scorcese, Paul Newman, Jack Nicholson. A cena inicial é do documentário On Yoga: the Architecture of Peace (Ioga: Arquitetura da paz), dispon í vel no Netflix, baseado no livro do próprio fotógrafo, com o mesmo título. O documentário, produzido pelo cineasta brasileiro Heitor Dhalia, traça os 10 anos de investigação do autor pelos caminhos do Ioga, a tradição milenar indiana que transformou a sua vida.

O’Neill se depara, no seu baú fotográfico, com imagens dos Himalaias dos anos 70. Ele mostra uma foto branca, com montanhas nevadas. “Se você olhar o mosteiro [budista] no canto inferior à direita, você compreende a imensidão das montanhas”, ressalta.

Era o início de sua paixão por essa região, um momento ainda inicial do conhecimento da Índia e do Ioga. Era um momento em que ele ainda estava começando a “juntar as peças”.

O que o levou ao Ioga? Um episódio traumático. Um sério problema físico, nervos calcificados no pescoço que prejudicaram o movimento dos braços, sem os quais ele não conseguiria mais fotografar. Seu braço direito chegou a ficar paralisado. “Meu neurologista disse que eu nunca o usaria de novo”, recorda.

O’Neill poderia ter aceitado essa lesão e se conformado em viver com uma deficiência. “Mas escolhi um caminho diferente. Escolhi superar aquele dano”, conta ele, que entrou numa dimensão mais positiva para poder aprender consigo mesmo a acalmar o medo. A primeira coisa que ele fez foi se dedicar à meditação.

“Eu comecei a ficar fascinado com o Ioga, que realmente trabalha com o sistema nervoso”, contou.

O projeto nasceu em 2007, quando ele decidiu também fotografar os grandes iógues que ele conheceu na Índia, após ter se banhando no Rio Ganges com 70 milhões de pessoas, no famoso Kumbh Mela, festival religioso hindu. E a partir do momento em que começou a fotografar, decidiu, então, criar uma conexão espiritual com os temas que havia passado a fotografar. “A busca de um espírito em uma imagem bidimensional se tornou um tema em todo o projeto”, explica.

“De certo modo me tornei um antropólogo”. Desde 2007 eu vinha analisando a causa da infelicidade: “São os desejos intermináveis”. O fato de se estar sempre ocupado para realizar estes desejos infindáveis, fazendo esforço. Às vezes a pessoa alcança o sucesso, mas às vezes não. E mesmo quando faz sucesso, continua infeliz, constata ele. Então, aí vem a lição número 1: corte a sua lista de desejos, deixe-a curta. “Assim você pode conseguir o contentamento”, resumiu.

Florência Costa

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