Como um “indiano invisível” se tornou um Tigre Branco?

Cartaz do filme O Tigre Branco

Sucesso absoluto, o filme ‘O Tigre Branco’ é o mais assistido em 64 países na plataforma Netflix e terá sido visto por 27 milhões de famílias antes de completar 1 mês de exibição.  Aravind Adiga, autor do livro que inspirou o filme, explicou em uma entrevista à jornalista Florência Costa, em 2008, que escreveu a obra a partir de  suas conversas com os “indianos invisíveis”

Florência Costa *

A realidade está aí, à nossa volta. Basta abrir os olhos, enxergar os invisíveis e ouvir suas histórias. Isso vale para a Índia e para o Brasil. Com a sua experiência de jornalista —  correspondente de revistas e jornais estrangeiros em Mumbai, o coração financeiro da Índia  – Aravind Adiga escreveu a sua maior obra: O Tigre Branco (2008). Nascido em 1974 na cidade de Chennai (no estado indiano de Tamil Nadu), Adiga mas foi criado na Austrália.

A minha entrevista com o autor foi publicada pelo jornal O Globo em 8 de novembro de 2008, quando eu era correspondente na Índia: “O lado sombrio da Índia” (trechos da entrevista estão no final desta resenha). Doze anos depois, ela permanece atual.    

O livro, vencedor do Booker Prize, um dos mais prestigiados do mundo,  inspirou o filme da Netflix  dirigido pelo  iraniano-americano Ramin Bahrani. Lançado no dia 22 de janeiro, o filme tem como foco o conflito de classes de uma Índia hiper-capitalista que ascende como estrela emergente do mundo globalizado e neoliberal, encourajada por seus parceiros ocidentais. 

Em duas semanas de exibição no Netflix, O Tigre Branco tornou-se o mais assistido em 64 países e será visto por 27 milhões  de famílias antes de completar um mês no menu da plataforma de streaming.

Adiga conta na entrevista que o protagonista do livro,  Balram Halwai, estava sempre perto dele, em Mumbai, onde o jornalista morava: “Tudo o que eu tive que fazer foi ouvi-lo”. Balram é  um jovem da Índia rural feudal, sedento para vencer na Índia urbana. 

Balram é um jovem pobre de um vilarejo do interior da Índia que consegue aprender a dirigir para ser um motorista de uma família rica em uma grande cidade.

Por que o título O tigre branco? Ele é um animal raro, mas presente na natureza indiana. É ferino e astuto como o ambicioso Balram. Assim como a fera, ele também é único porque consegue escapar da miséria do “galinheiro” onde sua comunidade vive esmagada por séculos. Desde a infância, o próprio Balram começa a cultivar uma fé intensa no excepcionalismo.

Já na Índia urbana, como um servente eficiente, ele se dedica ao bem-estar de uma família abastada, mas é constantemente humilhado. O ressentimento pela opressão milenar de classes e de castas ganha força. Ele percebe que na selva da Nova Índia, não há espaço para perdedores e fracos. Só há uma saída para fugir do sistema de exploração: se tornar seu próprio patrão e mestre. Custe o que custar.

Balram Hawai nasceu em uma família de casta baixa. Como indica seu sobrenome, pertence a uma comunidade que tradicionalmente prepara doces. Na escolinha rural que frequentou, era o aluno mais inteligente e esperto. Um professor, ao perceber seu talento, sentencia: “Você é o tigre branco, o animal tão raro que só nasce um em cada geração”.

O menino  vive em uma grande família chefiada por essa avó mandona, a matriarca.  Aqui vale registrar que algumas análises do filme, inclusive no Brasil, a interpretam como uma avó especialmente má. Balram reclama dela, é verdade, porque de fato a avó é osso duro de roer. Mas a matriarca Kusum apenas cumpre o seu papel, seguindo as rígidas, e muitas vezes cruéis, tradições familiares indianas. 

Quando Balram pede a ela dinheiro para ter aulas de direção e assim poder deixar o vilarejo para ser motorista na cidade,  sua avó o faz prometer que irá enviar a maior parte do salário para a família.

Isso não ocorre por defeito de caráter dela, embora Kusum seja de fato uma mulher de temperamento forte e autoritário. O que a move não é a avareza ou o desejo de explorar o neto. Ela quer o dinheiro para a família, para o seu grupo ao qual tem por obrigação proteger. O indivíduo na Índia tradicional nunca está em primeiro plano e deve se submeter ao coletivo.

Assim tem sido por milênios. Essa estrutura social só passou a ser questionada com a chegada da globalização. Boa parte dos migrantes que saem da Índia Rural para a Índia urbana obedecem “leis” milenares ensinadas pelos mais velhos.

Balram e os jovens patrões Ashok e Pinky

Quem vai trabalhar nas cidades manda boa parte do dinheiro que ganhar para seu núcleo familiar, dentro de uma tradição bastante enraizada na sociedade indiana, a mesma que ainda determina os casamentos arranjados. E ai de quem se recusar a seguir as orientações dos mais velhos. As notícias de jornais indianos dão conta de inúmeros casos de assassinatos em nome da honra: famílias mandam matar noivos que casam sem a concordância dos mais velhos, desobedencendo, por exemplo, a hierarquia de castas.

Quando eu li o livro, e agora recentemente vi o filme, lembrei, nas duas vezes, de Sonu, o Mogli, como era chamado o motorista de táxi que trabalhou para mim por alguns anos em Nova Delhi, onde vivi de 2008 a 2012, após ter morado em Mumbai de 2006 a 2007. Franzino, mas briguento, Mogli estava sempre prepocupado em mandar dinheiro para a sua família, que vivia no vilerajo de Morena, no estado de Madhya Pradesh.

O rapaz sabia que casaria com a mulher que sua família iria escolher. Essa é a regra milenar e quem se recusa a segui-la não é bem visto na Índia tradicional. Nos dias em que eu já me preparava para deixar a Índia, em 2012, ele havia enviado o convite de seu casamento. Mas não pude comparecer.

Mogli era um rapaz selvagem no trâsnito. Sempre dirigia com descuido, pisando fundo no acelerador. Uma noite ele atropelou – e matou – uma vaca de rua, aquelas que comem sobras de comida e reviram lixo nas grandes cidades. Para um brasileiro  pode parecer bobagem. Na Índia, onde o animal é sagrado, esse foi um erro gigantesco.

O calvário de Mogli começou com a sova que levou do dono do ponto de táxi e continuou com a dívida que ele foi obrigado a contrair para obedecer a orientação de sua mãe: ele deveria viajar para uma cidade perto do sagrado Rio Ganges, contratar um sacerdote para realizar um puja (cerimônia religiosa) para espiar o pecado.

Mais ainda: ele precisou bancar um almoço para todo o vilarejo. O atropelamento da vaca foi um inferno na vida dele, que ficou meses sem dinheiro, como contei em um dos capítulos do meu livro Os Indianos (Editora Contexto).

Balram Halwai

Mas voltemos a Balram. A relação dele com a avó e com sua família no interior mostra exatamente esse conflito entre  Índia tradicional X Índia moderna.  Com sua ânsia de escapar do “galinheiro”, Balram passa o rolo compressor na Índia do passado, ou seja, não cumpre totalmente a rígida regra social do auto-sacrifício para ajudar o grupo familiar e rejeita o casamento arranjado pela avó.

Toda a história de Balram é contada, desde o ínicio, como um flasback.  Ele já era um ex-motorista e dono de uma frota de táxi em Bangalore –  a cidade da Tecnologia da Informação,  símbolo da Índia do século 21 -, quando escreve uma carta  para o poderoso primeiro-ministro da China de então, Wen Jiabao, que visitaria aquela cidade.

Naquela altura, já vitorioso, não é mais Balram que escreve, e sim “um pensador, um empresário”. Para cortar de vez seus laços com o passado e sua origem de casta baixa, ele adota o nome do patrão brâmane: Ashok Sharma.

Seu patrão pertencia a uma das duas castas existentes na Índia, como o próprio Balram explicou: o dos “barriga grande”, os privilegiados. A outra casta é o dos “barriga pequena”, os massacrados,  da qual ele veio.  Mas, o destino ofereceu a Balram a chance de tornar-se um “barriga grande” naquela selva urbana e impiedosa onde quem não devora é devorado.

Balram comete um crime que possibilita a sua ascensão social. “Para os pobres só há duas formas de chegar ao topo: pelo crime ou pela política”, explica ele na carta ao mandatário chinês. Em seguida, pergunta ao primeiro-ministro: “Também é assim no seu país? ”.

O sucesso do filme fez a estrela Priyanka Chopra Jonas, que também produziu a obra, postar uma comemoração no Twitter. No filme, ela faz o papel de Madame Pinky, esposa de Ashok, o jovem patrão de Balram que estudou no exterior. Pinky é de origem indiana, mas nasceu nos Estados Unidos e não se adapta à “vida como ela é” na Índia.

O  papel de Ashok –  o patrão bonzinho e com sentimentos de culpa, mas que aprende rapidamente a dançar conforme a música indiana – ficou para o excelente ator Rajkummar Rao. Adarsh Gourav desempenha pela primeira vez o papel principal de um filme: Balram Halwai. Já está nos planos do diretor Ramin Bahrani adaptar outra novela de Aravind Adiga: “Amnesty” (Anestia), lançada em 2000. Ambientada na Austrália, a obra é sobre imigrantes ilegais sem direitos.

 Na versão literária de O Tigre Branco, Aravind Adiga  toca em vários aspectos da sociedade indiana: castas, religião, doenças sociais, corrupção, tradição política, consumismo, individualismo, instituições decadentes e a nascente indústria de terceirização. O humor negro e ácido é muito mais acentuado no livro do que no filme. Se você gostou do filme e nunca leu O Tigre Branco, aqui vai a sugestão: leia.

O choque cultural entre Ocidente e Oriente e a globalização são temas presentes também no livro e no filme. Por que Balram, já encarnado como o empresário Ashok Sharma,  decide contar sua história por meio de uma carta ao primeiro-ministro da China? Após cumprimentar Wen Jiabao durante a visita do chinês a Bangalore, o indiano sentencia: “Os brancos estão indo embora. Mais uma geração e eles já eram.  É o século dos asiáticos. Que Deus salve o todo o resto”.

Leia aqui trechos da entrevista do escritor Aravind Adiga, publicada no caderno Prosa e Verso do jornal O Globo em 8 de novembro de 2008:

Florência Costa (O Globo) : O que o fez escrever este livro, com uma história que mostra o lado brutal da realidade indiana justamente em um momento em que todos parecem estar apaixonados  pela imagem da Índia moderna e globalizada?

Aravind Adiga: “Todos os aspectos da vida de um país precisam ser explorados na literatura. E isso vale mais ainda para um país como a Índia, onde a maioria esmagadora da sua população  continuar a amargar uma existência de extrema pobreza. A Índia está de fato se desenvolvendo e progredindo, mas grande parte da população está sendo deixada para trás nesse processo de modernização. As histórias desses indianos que não se beneficiaram com a modernidade precisam ser contadas também.

F.C: O Sr. acredita que o Booker Prize para um livro tão crítico em relação ao país é uma indicação de que o mundo ocidental  já não vê a “Índia brilhante”?

A. A: A premiação mostra apenas que os juízes gostaram muito do romance. Em todo o mundo as pessoas estão com raiva dos políticos que os fizeram mergulhar na atual recessão e crise financeira. Há muita revolta por causa dessa terrível situação em todos os países do mundo. E o meu romance fala sobre essas pessoas que estão com raiva. O livro está sendo lido em todos os países como um romance anti-establishment. As pessoas encontraram as suas próprias frustrações articuladas nesse livro.

F. C: O protagonista do livro pode ser encontrado em qualquer parte da Índia. Mas pessoas como ele não tem tanta presença na mídia. Como foi o processo de criar esse personagem?

A. A: O personagem Balram Halwai está em torno de mim todo o tempo, foi fácil. Tudo o que eu tive que fazer foi prestar a atenção e ouvi-lo.

F.C: Quando o Booker Prize foi concedido a outros escritores indianos houve uma grande celebração no país, e isso não parece ter acontecido  com a premiação de “O Tigre Branco”. A classe média pode ter ficado ofendido pelas críticas?

A. A: O livro já era best-seller na Índia muito antes da premiação. Não foi escrito para agradar a ninguém porque esta não é a função da literatura. A intenção foi fazer as pessoas pensarem sobre questões fundamentais da sociedade indiana que o romance levanta. Acho que os leitores reconhecem que o livro diz algo muito importante. A maioria dos leitores na Índia parece ter gostado, essa é a reação que vejo. Mas alguns parecem descontentes e, para ser honesto, a intenção era chocar algumas pessoas. O livro tem a intenção de provocar e entreter na mesma medida.

* Florência Costa é jornalista e editora do site Beco da Índia. Foi correspondente do jornal O Globo na Índia (Mumbai e Nova Délhi) de 2006 a 2012. É autora do livro “Os Indianos”, da Editora Contexto, lançado em 2012.

Veja aqui o trailer do filme

1 comentário em "Como um “indiano invisível” se tornou um Tigre Branco?"

  1. Mauricio Andres Ribeiro | 7 de fevereiro de 2021 at 21:14 |

    Boa entrevista com um bom escritor!

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