Sonho Bollywodiano: como uma diretora de cinema brasileira completou a sua jornada indiana

O filme Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano (2009),  foi a primeira co-produção Índia-Brasil, dirigido pela cineasta paulistana Beatriz Seigner

Assim começa o filme Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano (2009), a primeira co-produção Índia-Brasil, dirigido por Beatriz Seigner, uma cineasta paulistana que percorreu a sua própria jornada indiana com apenas 17 anos, a primeira de muitas viagens que faria ao país asiático.

O primeiro contato de Beatriz com a Índia se deu pela dança clássica Odissi, que começou a aprender com 16 anos de idade em São Paulo. Por isso, as homenagens à dança no filme, simbolizadas pelos passos de sua própria professora no Brasil, Bhavana Rhya, em locais históricos da Índia, como as cavernas budistas milenares de Ajanta e Ellora.

Em uma das cenas de O Sonho Bollywoodiano, as três brasileiras conhecem um garoto indiano que vai ensiná-las a dançar o ritmo frenético de Bollywood. O menino as apresenta à imagem de Shiva, explicando que ele roubou a dança de Brahma (o deus da criação) para entregá-la à humanidade. Na Índia –  conta o menino – “Deus admira quem trabalha, mas ama quem dança”.

Mais adiante na estória, Sofia (a atriz Nataly Cabanas) lembra que o arquético contrário da paz no I-Ching é a estagnação. E a estagnação na cultura indiana ocorreria quando os deuses pararem de dançar.

Sofia filma a viagem e faz anotações de tudo o que vivenciaram, como encarnasse a própria Beatriz. A personagem Luna é representada pela atriz Lorena Lobato, e Ana, por Paula Braun.

A diretora brasileira Beatriz Seigner (à direita) em 2018. Crédito: Wikkimedia Commons

Antes de entrar para a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), a diretora Beatriz Seigner pegou a mochila e foi passar seis meses na Índia. Primeiro foi para Auroville, conhecida como “A Cidade do Amanhecer”, próxima a Pondicherry, no estado de Tamil Nadu, Sul do país. Auroville se transformou em um enclave espiritual internacional na Índia, onde os princípios do ioga interal são seguidos à risca.

Mas Beatriz percorreu vários outros lugares nessa sua primeira jornada indiana, como o estado de Orissa , as cidades da região da Cordilheira dos Himalaias, e as metrópoles Mumbai, Delhi, além de Hyderabad, capital do estado de Andhra Pradesh. “Foi uma viagem maravihosa, um divisor de águas”, contou.

Em Orissa,  Beatriz teve a chance de continuar seus estudos de dança Odissi com um grande mestre. “É uma dança super difícil, mas lindíssima, com várias interpretações de personagens da mitologia indiana. Dançar Odissi é um estado meditativo intenso, exige muita presença”, explicou.

Quando ela voltou desta primeira viagem à Índia, seus amigos atores perguntavam como era a indústria cinematográfica indiana, famosa pelo imenso número de filmes que lança a cada ano.

Cena do filme na qual as brasileiras aprendem a dançar. Crédito: Divulgação

“Eu tava com muita vontade de compartilhar algumas coisas que tinha aprendido lá. Pensei em usar essa história das três atrizes indo para a Índia para justamente poder abordar esses assuntos que me interessam  tanto e foi assim que eu comecei a escrever o roteiro. Seria um road movie”, contou Beatriz.

Voltando ao filme, as três personagens estavam cansadas da exploração de seus corpos na mídia brasileira e embarcam para a Índia para fazer um cinema mais filosófico, existencial e espiritual. Mas elas acabam em Mumbai, a cidade que abriga Bollywood, onde o teste do biquini é sagrado.

“Essa cultura em Bollywood é muito forte, mas as pessoas no Brasil não sabiam. Na época não havia tanto contato e o pessoal só pensava na Índia mística e espiritual”, disse a diretora.

Um detalhe na história da primeira experiência pessoal de Beatriz Seigner na Índia parece sem importância, mas veremos que não é: o de que, ainda em Auroville, ela assistia, numa sala de cinema, o filme Terrorista (1998). É sobre uma moça que está sendo treinada para ser terrorista, mas acaba engravidando, o que levanta o dilema sobre se ela deve ser uma mulher-bomba ou não. O obra  é do cineasta Santosh Sivan, de Tamil Nadu.

Mas aquele era o dia de seu aniversário. Beatriz completaria  18 anos de idade e alguém veio avisá-la, antes do fim do filme,  de que estava acontecendo uma festinha. Ela foi obrigada a sair da sala de cinema. “Era um filme fantástico, maravilhoso”, lembra. Ela ganhou a festa, mas perdeu o final do filme.

Uma referência à estética de Bollywood. Crédito: Divulgação

Corta a cena. São Paulo, alguns anos depois. Beatriz já tinha finalizado o roteiro de O Sonho de Bollywood. Um dia, foi a um festival de cinema indiano organizado pela Acacemida Internacional de Cinema, de São Paulo, que exibia justamente o filme Terrorista.

Era a chance de finalmente ver o final. O organizador do festival de cinema, Ram Devineni, um produtor indiano de Tamil Nadu que mora em Nova Iorque mas era um dos responsáveis da academia, estava lá.  Sua família, dona de um grande estúdio em Chennai (capital de Tamil Nadu), havia produzido justamente o filme Terrorista.

 “Mostrei o meu projeto e ele gostou”, conta. Ram Devineni ofereceu um apartamento em Chennai e a equipe técnica. “Eu providenciei as passagens para mim e para as três atrizes, além de me responsabilizar pela alimentação, que na Índia não é caro”, disse Beatriz. Na época ela tinha apenas 22 anos.

Beatriz havia acabado de receber a aprovação de um crédito do banco para comprar um carro. Ela usou o dinheiro para dirigir, não o carro, mas o filme. E realizou o seu sonho bollywoodiano.

No início, houve problemas de adaptação com o pessoal da filmagem, que estava acostumado com o estilo indiano de fotografia.“Eles tinham na época uma cultura de não trabalhar com roteiro, apenas falavam a cena. Ía demorar um tempo gigantesco para fazer o filme, com 120 cenas”, explicou.

Tudo o que a diretora brasileira falava em inglês era traduzido para a língua tamil, em um processo exaustivo. “As referências estéticas eram muito diferentes. Eu queria fazer o filme com referências mais diretas. Eles queriam glamour, luz estourada, ventilador”, recorda.

Até que ela teve a ideia de ligar para Santosh Sivan, o diretor de Terrorista: de novo volta à cena o filme que a marcou na primeira viagem à Índia. Sivan ofereceu a ela uma equipe de quatro pessoas acostumadas com a linguagem do cinema independente.

“Eles me ajudaram em tudo e eu assumi a câmera. Achei mais fácil eu mesma fazer a fotografia do filme do que ficar explicando, mesmo porque era fotografia digital”, disse.  Finalmente as coisas entraram no eixo. 

De certa forma,  o filme Terrorista está presente em O Sonho de Bollywood: o ator que faz o papel do dono do bar da pousada onde as atrizes se hospedam no Sul da Índia havia participado daquele filme. Ele é um personagem que antecipa às brasileiras a realidade que as esperava na Índia:

 “Normalmente escolhemos um caminho completamente diferente do destino ao qual queremos chegar.  Mas o caminho é que deveria ser o destino porque ninguém nunca alcança o final do caminho”, diz o dono do bar, em uma das cenas.

Cena do dança Odissi no filme. Crédito: Divulgação

O cronograma e o roteiro de O Sonho de Bollywood foi realizado levando em conta que a equipe passaria por certos festivais famosos indianos, como o que homenageia ao deus Ganesha.

“É tudo ficção, roteirizado, mas eu gosto  muito desse lugar que é o encontro da ficção com a realidade. Isso me dá um efeito estético muito fresco, muita verossimilhança, com improvisação, que eu gosto muito”, explicou Beatriz, que incluiu algumas referências às consagradas fórmulas de Bollywood em seu filme, como em uma linda cena das brasileiras dançando em um campo de girassóis.

As três atrizes acabam percorrendo nove cidades na Índia, em uma busca pelo produtor que havia prometido ajudá-las a trabalhar na indústria de Bollywood. O inevitável choque cultural com a Índia as desafiam.

“Todo mundo que foi à Índia já passou por situações  como ade ser obrigado a aceitar os improvisos, e isso é o que de mais rico vai acontecer pelo caminho. A Índia te ensina de uma maneira espetacular, mesmo porque parece que é tudo feito para dar errado mesmo”, refletiu Beatriz.

Para ela, a Índia é um lugar que atrai pessoas que vivem um momento de virada na vida, seja uma separação ou a mudança de profissão. “Ancestralmente parece que é um país em crise existencial. As pessoas te fazem perguntas muito profundas. Eles estão há 5 mil anos pensando nesses questionamentos”, ressaltou a diretora, tão apaixonada pela Índia que já voltou inúmeras vezes.

Sua ligação com a Índia parece não ter filme. O último longa de Beatriz, Los Silencios (2018),  teve como co-produtor um dos mais prestigiados diretores do cinema indiano: Anurag Kashyap.  

— Florência Costa

Veja aqui o trailer do filme Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano:

1 comentário em "Sonho Bollywodiano: como uma diretora de cinema brasileira completou a sua jornada indiana"

  1. Silvia Regina de Araújo | 21 de agosto de 2020 at 11:41 | Responder

    Não tem o filme no YouTube

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