As virtudes da raiva, segundo o neto de Gandhi

Arun Gandhi assina autógrafo em Sao Paulo. Foto: Florência Costa

A raiva pode ser canalizada de forma construtiva. Essa foi a mensagem que Arun Gandhi, hoje aos 84 anos, trouxe ao Brasil. Neto do líder pacifista Mahatma Gandhi, Arun visitou São Paulo, Goiás e Paraíba, onde compartilhou os ensinamentos da filosofia de não-violência de seu avô.
“Causamos mais violência porque não sabemos tirar proveito positivo da raiva. Não precisamos ter vergonha da raiva, que é muito poderosa, nos leva a agir. Era o que o meu avô dizia. Por isso, o meu conselho é usar a raiva com sabedoria, permitindo que ela nos ajude a encontrar soluções com amor e verdade”, disse.

Quinto neto de Mahatma Gandhi, Arun nasceu em 1934 na África do Sul, onde seu avô viveu por mais de vinte anos. Arun é autor de vários livros. “A Virtude da Raiva – e outras lições espirituais do meu avô Mahatma Gandhi” (Editora Sextante) é o último deles. Ele preside o Gandhi Worlwide Education Institute, sediado em Nova York (EUA), onde vive hoje. O instituto difunde mensagens de paz e não-violência.

A visita de Arun Gandhi, em 2018, foi a quarta que ele fez ao Brasil. Arun Gandhi deu palestras e encontrou representantes da polícia e do Judiciário a convite do Instituto RePacificar. “Disse a eles que o sistema coloca o seu foco nas pessoas que cometem o crime e não na raiz do problema, contou.
Sua sugestão é de que as escolas ensinem seus alunos a lidar de forma positiva com a raiva, que é a causa de mais de 80% da violência que experimentamos em nossas vidas.

Não é fácil manter a calma quando a gente é tomado pelo sentimento da raiva – observa ele. Mas quando você percebe os resultados positivos dessa estratégia, passa a acreditar nela, assegurou. “À medida que aumentamos a nossa habilidade de canalizar a raiva, vemos as mudanças nas pessoas ao nosso redor”, afirmou Arun Gandhi. Não há inimigos na sociedade não-violenta sonhada pelo seu avô. “ Ele sempre dizia que nunca teve inimigos”, contou.

“A Virtude da Raiva” é um relato das lições do avô ao neto durante os dois anos em que Arun Gandhi viveu no ashram (retiro espiritual) do líder pacifista na Índia, no fim dos anos 40. Naquele momento, Mahatma Gandhi liderava o movimento pela independência da Índia do Império Britânico.

A filosofia da não-violência foi aperfeiçoada por Mahatma Gandhi na África do Sul do Apartheid, onde sofreu muitos preconceitos. Na Índia ele também desenvolveu essa estratégia por meio de protestos pacíficos, mas com firmeza. Mahatma é um apelido que significa “grande alma”, dado pelo poeta indiano e Nobel de Literatura Rabindranath Tagore.

A palavra Satyagraha que ele usava para descrever seu movimento de não violência significa “força da alma”. É uma força que nasce do entusiasmo positivo aplicado nas ações.

Arun explicou que a filosofia da não-violência de Bapuji, como chama seu avô famoso, nada tem a ver com fraqueza. “Meu avô considerava a não violência uma forma de nos tornarmos mais fortes em termos morais e éticos”, afirmou.

“Minha família passou por muitas perdas. Meu avô foi assassinado, meu pai sofreu torturas na prisão e acabou morrendo em consequência disso, e meu sobrinho de 29 anos foi morto em um crime político. Mas nós aprendemos com meu avô que não iríamos buscar vingança. Isso não significa esquecer o que aconteceu, nós sempre vamos lembrar porque não queremos que isso se repita”, explicou.

Quando Mahatma Gandhi foi assassinado por um fundamentalista hindu em janeiro de 1948, Arun era um garoto de 13 anos. Ele não estava na Índia naquele momento. Tinha acabado de voltar para a África do Sul para viver com seus pais, após ter passado dois anos com o avô na Índia.

Arun — cujo pai, Manipal, era o segundo filho de Mahatma Gandhi — insiste em um ponto: “As pessoas precisam educar seus filhos sem violência”.
Foi o que seu avô fez. Mahatma Gandhi o ensinou a desenhar uma árvore genealógica da violência. Seus dois galhos eram o da violência física e o da violência passiva, ou seja, ações como desprezo, discriminação etc. “Antes de dormir eu tinha que analisar minhas ações e as das outras pessoas”, lembrou.

Em alguns meses ele cobriu a parede do seu quarto com exemplos de atos de violência passiva. “A violência passiva causa revolta na vítima, que acaba apelando para a violência física. Por isso, a violência passiva é o combustível da violência física”, explicou.

Essa mudança de atitude é urgente – constatou Arun. “Estamos alcançando níveis intoleráveis de violência e ódio no mundo”. Como dizia Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você deseja no mundo”.

Florência Costa

Leia aqui matéria sobre a visita de Arun Gandhi ao Brasil,  publicada no website Colabora.

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