Escritora indiana traduz para o inglês o romance brasileiro São Bernardo, de Graciliano Ramos

Crédito: World Literature Today

R.Viswanathan, diplomata indiano aposentado que serviu no Brasil, explica como a estória de Graciliano Ramos se conecta com sua infância e adolescência na Índia

O romance São Bernardo, de Graciliano Ramos (1895-1953), foi traduzido para o inglês pela indiana Padma Viswanathan e publicado no New York Review Books, em maio de 2020, informa R. Viswanathan, diplomata aposentado. Ele foi embaixador da Índia na Argentina, no Uruguai e no Paraguai e também foi consul-geral da Índia em São Paulo. É autor do livro Malgudi to Macondo, sobre sua experiência na América Latina.

Publicamos aqui a tradução do texto do diplomata, que explica por que a estória de Graciliano Ramos e o protagonista Paulo Honório lhe pareceu familiar, que nasceu em um vilarejo do estado de Tamil Nadu (Sul da Índia):

“Essa é a estória de Paulo Honório, um pobre agricultor que torna-se dono da fazenda São Bernardo, mas no final perde tudo e escreve as suas memórias. Paulo, iletrado e rude, é preso por ter esfaqueado um homem em uma disputa por uma moça. Na prisão, ele aprende a ler e a escrever.

Após ser solto, torna-se caixeiro-viajante e faz algum dinheiro. Com isso, ele compra a fazenda onde costumava trabalhar como agricultor. Paulo Honório a transforma em uma propriedade produtiva, com irrigação, represas, plantação de algodão, orquídeas e gado. Fazendeiro rico, ele passa a oferecer empregos e nessa nova jornada consegue enfrentar e derrotar rivais invejosos. Assim, manda a todos o recado bem claro: não se pode mexer com ele. Paulo Honório é um patrão rígido que sabe exigir resultados produtivos de seus empregados. A atenção de jornalistas e políticos locais se volta para ele.

Após alcançar um status respeitável, procura uma mulher adequada para casar e ter filhos: os herdeiros de sua propriedade. Paulo Honório se casa com Madalena, uma professora pobre de uma cidade vizinha. Ela é generosa com as famílias que trabalham na fazenda de seu marido e pede a ele que seja menos severo e mais humano no tratamento que dispensado aos trabalhadores. Mas Paulo considera esse pedido uma interferência no gerenciamento da fazenda.

R Vishwanathan foi embaixador da Índia
em vários países da América Latina. Crédito: Youtube

Com seu vocabulário e conhecimento limitados, ele não entende as conversas literárias e políticas de sua esposa com o editor de um jornal, o professor da escola, o advogado e o padre, que visitam sua casa. Ele desconfia de suas idéias sobre comunismo e revolução e começa a nutrir a suspeita de que ela é infiel. O ciúmes da interação de Madalena com outros homens só aumenta. Paranóico, ele começa a maltratá-la.

Eventualmente, Paulo Honório fala abertamente com a mulher sobre sua suspeita. Incapaz de suportar o sofrimento, a inocente Madalena comete suicídio. Depois disso, as pessoas que mantinham relações de amizade com Madalena se afastam dele.

Mesmo rico e casado com uma moça educada, Paulo não conseguiu achar a felicidade. Ao contrário, o seu sucesso ironicamente o isolou e tornou a sua vida solitária e impossível. Ele desdenha tanto a classe trabalhadora da qual veio como a elite rica à qual passou a pertencer. Paulo é duro com os trabalhadores e sempre reclama que eles são preguiçosos e se esquivam de responsabilidades. Desconfia dos habitantes educados da cidade. Quando um jornal local publica artigos críticos sobre ele, Paulo chicoteia o editor.

Madalena havia dado à luz a um filho seu, mas Paulo não experimenta nenhum sentimento de ternura em relação à criança, fraca e doentia. O amor e a afeição estão ausentes no vocabulário dele.

No final, Paulo relembra os cinquenta anos desperdiçados, sem sentido, durante os quais apenas maltratou os outros. Foi tão insensível  que nenhum arranhão poderia penetrar na sua pele espessa e ferir a sua alma, enfraquecida por dentro.

Capa do livro Sao Bernardo, de Graciliano Ramos

‘Se me vejo no espelho, fico chateado com minha própria boca e olhos duros. Aposto que tenho um coração minúsculo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos de outros homens. Sem mencionar um nariz enorme, uma boca enorme e dedos enormes. Se foi assim que Madalena me viu, ela deve ter me achado incrivelmente feio’, refletiu.

Paulo começa a escrever a sua história, seus erros e acertos. O título de suas memória é São Bernardo, nome de sua fazenda. Ele escreve do jeito que fala, é uma história simples, clara, seca e linear, sem reviravoltas, ou suspense.

Não há menção a futebol, carnaval, samba ou praia para lembrar os leitores da animada cultura brasileira. Não existe realismo mágico latino-americano. Não há acrobacias verbais borgesianas, enredos labirínticos ou invenções intelectuais. Não há passagens citáveis ​​ou pérolas de sabedoria. Não há necessidade de verificar a wikepédia.

A linguagem usada no romance de Ramos é típica das áreas rurais do estado de Alagoas, no nordeste do Brasil. Alagoas é um dos menores e mais pobres estados do Brasil. Na nota da tradutora, Padma Viswanathan falou sobre os desafios que enfrentou na tradução devido às expressões locais usadas no romance. Ela precisou contar com a ajuda linguística de brasileiros nativos.

Achei esse romance de Graciliano Ramos semelhante em alguns aspectos aos de Jorge Amado, meu autor brasileiro favorito, que também é da região nordeste do Brasil. Mas a Bahia é um estado culturalmente mais rico.

São Bernardo foi publicado em 1934. A tradução para o inglês feita por Padma acabou de ser lançada: maio de 2020. Graciliano Ramos é chamado de ‘o Faulkner do Brasil’. Enquanto William Faulkner tornou-se mundialmente famoso e ganhou o prêmio Nobel, Graciliano Ramos não é conhecido fora do Brasil.

Faulkner tinha simpatia por esses autores latino-americanos e estabeleceu o Projeto Ibero-americano de Romance para encontrar e publicar os melhores livros de todos os países da América do Sul. A outra obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas, foi escolhida como representante do Brasil para o prêmio Faulkner em 1962.

A própria Padma Viswanathan é uma autora bem conhecida, autora de dois romances: The Toss of a Lemon e The Ever After of Ashwin Rao. Ela é professora associada de escrita criativa na Universidade de Arkansas, em Fayetteville, EUA. Padma e eu compartilhamos o nome Viswanathan. No caso dela, é um sobrenome. Mas para mim é o primeiro nome. Viswanathan é um nome urbano comum do sul da Índia, mas raro na minha aldeia, no estado de Tamil Nadu, que divide algumas semelhanças com o interior do estado de Alagoas.

Cena de filme inspirado no livro São
Bernardo. Crédito agencia alagoas

Criado em meio a fazendas e gado por um tio analfabeto, eu pude entender e compartilhar plenamente os sentimentos ásperos e secos de Paulo, o personagem agricultor do romance. Como Paulo, meu tio suspeitava de pessoas instruídas. Ele era contra meus estudos no ensino médio e na faculdade, com base em sua firme convicção de que um pouco de leitura era suficiente para administrar as terras e o gado.

O único homem que tinha um diploma de mestrado em nossa aldeia ficou louco. Seus gritos costumavam perturbar nossa rua à noite. Esta foi a confirmação do medo de meu tio de que muita leitura pudesse virar a cabeça das pessoas. Toda vez que meu tio via um livro em minhas mãos, ele me lembrava o homem louco.

Como Paulo, meu tio nunca manifestou afeto nem proferiu uma palavra gentil, encorajadora ou elogiosa para mim. Ele nunca me perguntou do que eu gostava ou precisava. Eu tive que encaminhar meus pedidos através da minha tia, o canal adequado. Mas ele era muito específico sobre a área para onde eu deveria levar o gado para pastar e o tipo de grama que eu deveria cortar e trazer para as vacas.

Nunca esqueço a bronca pública que ele me deu um dia por levar o gado para pastar em uma área diferente daquela que ele havia indicado. Ele próprio não procurava prazeres, confortos ou luxos para si. Viveu uma vida austera e simples e ficou completamente confinado à vila por toda a sua vida. Meu tio esperava sinceramente que eu seguisse seus passos.

Mas os livros realmente viraram minha cabeça, positivamente. Após todas as férias de verão eu lutava para voltar aos estudos. A educação me ajudou a fugir da vila e conhecer não apenas as cidades da Índia, mas também o Brasil por alguns anos.

Na nota de seu tradutor, Padma diz que ‘as ações, atitudes e linguagem de Paulo nos atraem para regiões desconfortáveis ​​de simpatia e desidentificação simultâneas’. Mas com minha origem em uma vila indiana e a experiência de meu tio, encontrei confortável identificação e ressonância na estória de São Bernardo, que trouxe de volta a minha própria saudade pelo meu próprio vilarejo na Índia  e pelo Brasil.”


R. Viswanathan, latinamericanaffairs (o texto foi publicado originalmente em inglês no blog Latinamericaaffairs, em 28 de julho de 2020. A tradução para o português foi feita por Florência Costa

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