Monja Coen: “Se desenvolvermos sabedoria e a capacidade de ver a realidade com clareza, transformamos o mundo do ponto de vista político, econômico e social”

Monja Coen. Crédito: Sesc-rs.com.br

A monja Coen e o professor Marcos Rojo falaram sobre defesa do meio ambiente, depressão, a importância da disciplina, o ódio nas redes sociais e os preceitos éticos no yoga em live do Centro Cultural Swami Vivekananda

A Monja Coen experimentou o yoga há mais de 15 anos e quando descobriu essa prática, pensou: “ Nossa, como não pratiquei antes?”. A monja Zen Budista explicou que Zen é uma palavra que vem de “dhyana”, do Sânscrito, que significa meditação. Ela participou de uma live no Facebook e no YouTube da página do Centro Cultural Swami Vivekananda, no domingo 21, juntamente com o professor de Yoga Marcos Rojo, com a intermediação do Beco da Índia.

Sua ordem, Soto Shu, segue três princípios: paz, direitos humanos e sustentabilidade. Uma defensora da preservação ambiental, a monja lembrou que naquele mesmo dia [21 de junho] havia ouvido o teólogo Leonardo Boff comentar a atitute suicida do ser humano em não cuidar do meio ambiente, que é o que nos sustenta.

Lembrando Patanjali (o sábio indiano que sistematizou os preceitos do Yoga há muitos séculos), a Monja Coen destacou três dos oito aspectos desta prática. Um deles é o “dharana”, a plena atenção, ou o mindfulness. A plena atenção leva ao “dhyana”, que é zen, a meditação. E a meditação leva ao  “samadhi”, um estado onde nada falta e nada excede. É o sentar profundo e sereno dos seres iluminados, segundo ela.

“Nas nossas salas de aulas de meditação no Japão, está escrito ‘samadhi’. Essa é a proposta da nossa meditação e cada asana é um processo meditativo. O yoga é a consciência do corpo e da mente. Algumas pessoas só percebem a parte mais superficial do yoga, que é o movimento, os músculos, os ossos. Mas aos poucos você vai percebendo uma sutileza que é esse aspecto verdadeiro e meditativo. O Dia Internacional do Yoga [comemorado em 21 de junho, uma data instituída pela ONU] deve ser de compreensão de corpo e mente não divididos, como uma unidade”, opinou.

A monja disse que não acredita em ensino religioso porque ele deve ser laico já que as religiões são escolhas pessoais, das famílias e elogioi o professor Rojo por ensinar yoga sem se referir a nenhuma religião. “O professor não insiste que precisam ser religiões indianas, nem Budismo, nem Cristianismo, seja o que for. Cada um tem a sua e não vamos falar nisso”, afirmou.

O bate papo entre a monja e o mestre de yoga durou uma hora e dez minutos e o link do vídeo est´ano final desta matéria. Eles conversaram sobre vários outros assuntos, como depressão, a importância da disciplina, o ódio nas redes sociais e os preceitos éticos no yoga. Aqui estpa a transcrição de alguns trechos principais, destacado por temas:

Yoga é para todos
“Eu recomendo yoga a todos”, disse a Monja Coen.  Ela afirmou que é para qualquer pessoa, de qualquer idade, uma prática que deve ser feita com um bom professor ou professora, em conforto e estabilidade. “Certa vez eu tava fazendo um retiro nos EUA, e de repente começou a doer muito, doía a perna, eu pensava demais em uma porção de coisas e eu comecei a fazer uma respiração consciente e anos depois eu descobri os pranayamas do yoga”, contou.

O professor Marcos Rojo lembrou que o yoga é descrito na literatura clássica, nos textos de Hatha Yoga, como sendo uma prática para todos, homens, mulheres, idosos, crianças, para quem está saudável e para quem está doente, para quem pensa na espiritualidade ou para quem não pensa na espiritualidade.

Segundo ele, o yoga não tem contraindicação porque não existe contraindicação para autoconhecimento, não existe contraindicação para o bem-estar. Existem adaptações das técnicas para cada grupo.  “O yoga que vou propor para uma criança de três anos não será a mesma que eu vou propor para um senhor de 70 anos. Mas o yoga permite que todos possam fazer juntos. O grau de envolvimento com a prática e de concentração é o que determina quem está começando ou não. Eu acho muito bonito isso porque o yoga é para todos”, ressaltou.

Yoga e depressão
A monja Coen explicou que a meditação pode ajudar a pessoa perceber que precisa de ajuda. “Depende muito do nível da depressão, há vários estágios. Às vezes precisamos tomar remédio, de um terapeuta. Apenas as práticas meditativas e respiratórias podem não ser suficientes para tirar a pessoa do seu estado alterado. A depressão ou o excesso de alegria são estados alterados da mente. Procuramos trazer a pessoa de volta ao estado natural. A depressão é uma doença gravíssima, do nosso século, muitas pessoas estão ficando desencantadas com a vida e consigo mesmas. Se tiver com depressão, a pessoa deve procurar ajuda especializada, não deve achar que a meditação ou yoga vão salvar”, disse.

O professor Marcos Rojo contou que quando recebe alguém um pouco mais triste, mesmo que não esteja deprimido, mas que não está numa fase boa,  não aplica práticas de muita introspeção, não propõe pranaiamas ou ralaxamentos muito profundos. “Vou propor asanas um pouco mais vigorosos, vou trabalhar com pouco mais de força, com exercícios respiratórios que vão dar um pouco mais de ânimo e gás. De preferência, eu conversaria com aquele que está orientando a pessoa, seja o psicólogo, ou o psiquiatra que pudesse me dizer se um relaxamento profundo é bom ou não”, afirmou. Nos casos de depressão, ele destacou que não entraria nessas práticas sem que tivesse o aval de algum profisional competente.

Yoga e disciplina
A disciplina é um fator importante na prática, principalmente nesses dias de quarentena, disse a Monja Coen. “A gente cria um ritmo, um horário, um cantinho na sua casa para meditar. Se sua casa é muito pequena, reserva um cantinho numa parede”, afirmou.

Os que não estão acostumados a meditar, a fazer qualquer atividade física, mesmo ioga, a prática exigirá esforço nos primeiros seis minutos, explicou ela. “Mas depois é tão prazeroso que você quer continuar fazendo. Você começa a  perceber os resultados benéficos, é um contentamento com a existência. Yoga para mim é uma benção, é a atividade fisica que não é só atividade física. Tem tudo a ver com o processo meditativo. Quando você pratica, tem a consciência  do seu corpo, da sua mente, do seu espírito, não com identidades separadas, mas com essa união dos três”, explicou a monja.

O propósito, segundo ela, é o autoconhecimento que vai nos fazer perceber onde estamos, um autoconhecimento que nos fará procurar meios hábeis de nos libertar das nossas próprias amarras que não são postas pelos outros, mas por nós. “Quando você começa a praticar, a preguiça vai embora. No Budismo falamos que só de a gente se colocar na postura de meditação, todos os diabos vão embora”, destacou.

Veja aqui a entrevista completa no vídeo do canal do Centro Cultural Swami Vivekananda no YouTube:

Yoga e agressividade
A Monja Coen, que está há 100 dias dentro de casa, em quarentena devido à pandemia da Covid 19, diz que o momento é de solidariedade e de pensar mais nos outros. Sua forma de lidar em relação às manifestações de ódio é incentivando o ato de diálogo entre os que pensam diferente. Ela lembra que o ódio já vinha antes da pandemia e estava sendo estimulado aqui no Brasil por dualidades de pensamento.

“Eu posso pensar diferente, ter propostas diferentes, mas não preciso insultar ninguém. A gente vê um governo que está meio desgovernado, meio inseguro no que está fazendo. Há propostas diferentes no país todo, de governadores diferentes [sobre como reagir à pandemia]. Então tem uma instabilidade de não saber o que vai acontecer e isso causa muito insegurança”, opinou a Monja.

Ela citou o exemplo de Buda para destacar a existência do conceito da impermanência: “Eu me lembro de Buda, um indiano maravilhoso, que com 80 anos de idade estava morrendo dizia: não há nada seguro neste mundo, a ideia de segurança que nós criamos é uma fantasia, o mundo é a transformação e movimento incessante”, disse a monja.

A monja destacou que é preciso compreender até mesmo aquele que não nos compreende. “Temos que entender aquele que insulta, que fala de ódio, porque ele deve ter sido criado e educado dessa maneira. Me lembro da professora Lia Diskin [fundadora da Associação Palas Athena, que divulga a cultura da paz]. Ela sempre ressalta que Mahatma Gandhi afirmava que não se deve odiar a pessoa, mas rejeitar a ação errada dela. Eu condeno a palavra errada, o gesto errado, o pensamento errôneo, mas este é um ser humano que eu não quero que desapareça. Eu quero que acorde e desperte. A palavra Buda quer dizer aquele que despertou. Despertar para a verdade de que estamos todos interrelacionados”, disse.

Ela contou que sempre leva para as redes sociais a mensagem de que as pessoas não devem falar grosserias ou agressões. A monja ressaltou aspectos positivos em toda essa situação: as pesquisas científicas sobre o coronavírus e a solidariedade. “Temos pessoas extremamente caridosas, solidárias e amorosas ajudando quem precisa, indo nas áreas carentes, levando comida para idosos.  Há coisas bonitas surgindo, não apenas brigas”, lembrou.

Yoga e a necessidade de  defender o meio ambiente
A monja lamentou o descuido com a vida na Terra, lembrando que e a vida da Terra é a nossa vida, nosso corpo comum. “Hoje a minha ordem tem três princípios: paz, direitos humanos e sustentabilidade, ou meio ambiente. São os princípios que nós, monjes, devemos viver, desenvolver e transmitir.  O que a gente percebe por meio da prática meditativa é que nós somos a vida da Terra.  Eu interdependo de todas as outras espécies  para a sobrevivência da espécie humana. Nós precisamos de árvores, os indígenas chamam as árvores de o povo de pé. Nao é bonito isso?”, observou.

“Hoje mesmo eu estava ouvindo o Leonardo Boff [teólogo e escritor] falando sobre isso: que descuidamos daquilo que nos dá a vida. É quase um suicídio. Não cuidar do meio ambiente, abusar da vida é abusar de você mesma. Porque isso vai se voltar contra nós. Nós precisamos das árvores. Precisamos de oxigênio, precisamos de solo fértil, que não seja contaminado porque vai causar muitas doenças no ser humano. Quando falamos sobre comer com menos agrotóxicos, comidas mais naturais, que seja da época do ano,  sem querer comer coisas muito extraordinárias, é mais saudável”, disse.

Ela lamentou que em vez de por a vida em primeiro lugar, põe-se o lucro em primeiro lugar. Cortam árvores para ficar rico, vendem para fazer móveis, casas. “Não é preciso fazer isso. Nós fazemos casas hoje até de plástico, garrafas pet servem para fazer casas. Nós temos muita criatividade. Temos de tomar cuidado com a ganância”, observou. A monja Coen lembrou de três venenos: ganância, raiva, e ignorância. 

“Da ignorância surge tudo. Se nós desenvolvermos  sabedoria e a capacidade de ver com clareza a realidade estamos transformando o mundo política, econômica  e socialmente. Não conheço transformação maior do que esta. Uma transformação em que cada ser humano acorde. Temos uma capacidade de  inteligência e de percepção  sobre a realidade e a necessidade das outras espécies,  para atendê-las, para que elas não sejam extintas. 

Yoga e ética
Quando Patanjali fala do caminho do yoga, ele explica sobre o “Tapas”, que é disciplina, determinação. “Não adianta só estudar os textos se não vai praticar [o yoga]. Não vai funcionar. Mas determinação e disciplina não são sinônimos de sofrimento. Isso não é autoflagelação. A  disciplina e a determinação nos levam a uma sensação de liberdade de fazer aquilo que às vezes eu não quero fazer, de não ser escravo dos meus desejos e dos meus impulsos.

Outro dos preceitos descritos por Patanjali é o da não-violência. Esse é muito importante porque gera todos os outros. Mentir é uma forma de violência, roubar é uma violência. Ou seja, todos os outros tem uma relação com a  não-violência, explicou o professor.

O caminho do yoga começa pelas atitudes. A técnica , os exercícios,  as práticas são importantes, mas antes disso Patanjali  descreve atitudes. Ou seja,  não pense que voce vai levar a vida de qualquer jeito, com todas as ganâncias, raivas e ignorâncias e no final do seu dia você pratica meia dúzia de asanas, dois pranaiamas e fica esperando a iluminação. Praticar yoga  é praticar todos os dias, o dia inteiro.

As Nova Gerações
Marcos Rojo diz que é um otimista, lembrando que a geração de seus filhos já  é melhor do que a dele em termos de conscientização sobre meio ambiente e outras questões. “A geração do meu neto vai ser mais cuidadosa ainda.  Acho positivo que a educação para a ecologia aconteça, que as  crianças desde cedo comecem a olhar para dentro, mas eu não gostaria que houvesse nenhuma linha específica, que não haja obrigação de que se tenham aulas de yoga ou de uma linha meditativa. Que isso não seja impositivo. O professor de matemática pode falar um pouquinho  sobre ecologia, o professor de História pode falar sobre autoconhecimento. Assim, de uma forma um pouco mais  distribuída, sem que isso seja uma disciplina”, opinou.

A monja Coen concordou, afirmando que todas as disciplinas podem ensinar  o autoconhecimento e a autopercepção.  “Muitas vezes uma crianças  chega na sala de aula aflita porque os pais brigaram, por exemplo. O professor pode, já na primeira aula, propor uma respiração. Uma vez,  não é nem meditação nem nada. E depois começa a aula.  Inclusive isso ajuda a dar foco, atenção.  Se em cada aula, depois de cada intervalo tiver uma respiração consciente,  a criança já fica presente”, explicou. Em uma aula de matemática –  exemplificou a monja – o professor pode perguntar à criança quantas vezes ela respira em um minuto. Na aula de Biologia, a criança bebe água e o professor pergnta: onde está a água agora,  se está na garganta, no esôfago, se chegou no estômago, se dá para ouvir um barulhinho.

  “A criança estará presente no que esté acontecendo.  Não pode ser religioso porque eu não acredito em ensino religioso. O ensino é laico. As religiões são opções pessoais, das famílias, Cada um tem a sua religião. Se a gente impõe alguma coisa,  a gente impõe de forma errônea”, opinou. Ela comentou que muitos alunos gostam do professor Marcos Rojo justamente porque ninguém nem sabe qual é a religião dele. “Ele não impõe isso na sala de aula para ninguém. É uma coisa dele. O professor não insiste que precisam ser religiões indianas, nem Budismo, nem Cristianismo, seja o que for. Cada um tem a sua e não vamos falar nisso”, observou a Mpnja Coen. O importante, segundo ela, é o despertar da consciência. “Vamos ficar bem conosco, comigo e com a vida”, constatou, lembrando que os professores devem ser bem treinaods e bem pagos, principalmente os que trabalham com a infância.

“Se formos capazes de nos autoconhecer, vamos ser seres muito gentis e cuidadores. Hoje celebramos o dia do yoga e que bom que a Índia manteve as tradições que chegam até nós. E que a gente possa ser um ser humano melhor  porque estamos o tempo todo nos observando, vendo as nossas falhas  e nos corrigindo”, finalizou a monja.   

— Equipe Beco da Índia

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