O gênio indiano que conheceu o infinito e via na matemática a mais pura beleza: Srinivasa Ramanujan

Devika Bhise e Dev Patel em "O Homem que viu o infinito". Credito: Warner Bros.

Há gente que se arrepia ao ver números. Mas há os que enxergam neles beleza pura. Como dizia Bertrand Russel( 1872- 1970), filósofo e matemático britânico, se for corretamente observada, a matemática não carrega em si apenas a verdade, mas a beleza suprema. É essa mensagem que recepciona o espectador do filme “O Homem que viu o infinito” (2015), do diretor britânico Mattew Brown, sobre um dos maiores gênios da matémática, o indiano Srinivasa Ramanujan, que morreu há exatamente 100 anos. Ele foi representado na tela pelo ator Dev Patel, e o filme está disponível no Netflix.

O filme é baseado no livro com o mesmo título, do autor Robert Kanigel. A história de Ramanujan (22 December 1887 – 26 April 1920) é como a sua matemática: verdadeira e bela. Mas também é muito triste, por sua morte prematura.

G. H. Hardy, professor do Trinity College (Cambridge), que reconheceu a genialidade intuitiva de Ramanujan, foi um homem que se dedicou tanto ao seu objeto de estudo que não tinha tempo para relações pessoais. G.H. Hardy foi representado no filme por Jeremy Irons. Sua frieza nos relacionamentos, no entanto, foi quebrada pela associção inesperada com aquele indiano, que vivia sob a arrogância do Império Briânico, em Madras (atual Chennai, capital do estado de Tamil Nadu, no Sul da Índia).

“Minha associação com Ramanujan foi o único amor acidental que tive na minha vida”, diz o personagem de Irons, emocionado, ao saber da morte do colega indiano, aos 33 anos, de tuberculose.

Com suas lunghis (calças largas) de algodão branco e bolsas a tiracolo, o autoditada não conhecia reconhecimento em sua Madras, nem entre indianos, nem entre oficiais britânicos, que simplesmente não conseguiam detectar a sua genialidade.

Mas Ramanujan não era um homem de desistir. Já casado , mas desempregado, escreveu para o professor G H Hardy explicando as suas descobertas matemáticas que deixam o britânico de queixo caído, a ponto de convidá-lo para o Trinity College, quando o mundo amargava a I Guerra Mundial.

Hardy percebe que o calibre de Ramanujan é comparável a de dois outros gênios matemáticos europeus: o suíço Leonhard Euler (1707-1783) e o alemão Carl Gustav Jacob Jacobi (1804-1851)

Ramanujan não tinha treinamento formal na matemática, mas fez contribuições de ouro em áreas como teoria dos números, séries infinitas e frações continuadas, solucionando problemas considerados impossíveis de serem decifrados.

Nos tempos de pobreza em Madras, quando andava de carroça de boi e sandálias puídas, nem tinha papel suficiente para usar em seus exercícios matemáticos: era obrigado a utilizar papel de embrulho das docas da cidade.

Há momentos do filme em que mesmo a criatura mais apavorada com a matemática, se convence de que Bertrand Russel tinha, afinal, razão. Quando Ramanujan mostra seu caderno lotado de números indecifráveis à sua jovem e bela esposa, ela reage, desconfiada: “Dizem que você gosta mais de números do que de gente”. O Ramanujan do filme responde: “Isso é como uma pintura. Imagina que tem cores que você não poder ver”. Em seguida, pega um punhado de areia do chão para exemplificar: “Imagina se pudéssemos ver cada partícula desses grãos. Você perceberia que há padrões em tudo: na cor na luz, nos reflexos na água. Na matemática, esses padrões se revelam de maneira mais incrível. É muito bonito”, diz, com seus grandes olhos marejados, sob o belo luar da noite de Madras.

O drama de ir para a Inglaterra era esperado, já que ele era um brâmane, a mais alta casta da pirâmide casteísta indiana. Naquela época, acreditava-se que quem cruzasse “as águas escuras”, ou seja, os oceanos, ficaria impuro. Em uma cena do filme, sua mãe chora para que ele não aceite o convite, mas a esposa entende a importância da viagem e o incentiva, embora fique, amargurada, à espera dele em Madras.

Veja aqui o trailler do “O Homem que viu o infinito”, com legendas em português:



O filme é uma história de genialidade, de amor, de amizade, de preconceito e de resistência ao colonizador. Quando um amigo indiano, que era seu chefe em Madras, o ajudou a conseguir o convite de Hardy, desabafou: “Os britânicos devem reconhecer que somos tão brilhantes quanto eles”.
Mas a adaptação de Ramanujan à Cambridge foi duríssima. À noite e de manhã, em seu quarto espartano, ele se fortalece com as pujas diante de suas pequenas divindidade de bronze, como Ganesha. Mas o gênio indiano, vegetariano, amarga o inferno no refeitório: nem a batata consegue comer, por ter sido cozida com banha animal.

Ramanujan é obrigado a assistir aulas de um professor carrasco, que o chama de “escurinho”. Tenta usar sapatos, mas eles massacram os pés. Volta para suas sandálias, para horror de colegas britânicos. Hardy insiste com Ramanujan que quer desenvolver as provas de suas fórmulas geniais.

O embate se estende no filme inteiro e acaba com a saúde de Ramanujan, no inverno inglês com racionamento de comida devido à guerra, que transformou os belos jardins do Trinity College em enfermaria. “Como Mozart podia ouvir toda uma sinfonia em sua mente, você pode dançar com os números até o infinito”, observou Hardy no filme, um contraste com Ramanujan em tudo, inclusive na ausência de fè em qualquer deus.

O assédio agressivo por sua cor de pele continua, especialmente quando ele vai à cidade comprar vegetais e encontra militares brancos, que o chutam. “pretinho parasita, essa é a nossa pátria, não esqueça disso”. Mas Ramanujan não desiste de sua bela matemática.

Imagina uma figura racionalista ao extremo como Hardy ouvir de um hindu devoto que uma equação não tem nenhuma significado, a não ser que espresse o pensamento de Deus. Ramanujan acaba conseguindo uma façanha: é aprovado membro da Sociedade da Faculdade de Trinity, tendo que ser engolido por vários racistas incomodados com aquele indiano no seleto clube de brancos arrogantes. Ramanujan volta finalmente para a sua calorosa Madras, para sua esposa saudosa, mas não tem muito tempo de vida.

Em 1976, foi descoberto um “caderno perdido”, escrito no último ano de sua vida, contendo novas fórmulas inovadoras. Sua importância foi comparada à descoberta da 10ª Sinfonia de Beetovhen . Um século depois, essas mesmas fórmulas são usadas para entender o comportamento dos buracos negros.

Ramanujan vale tudo: que se leia a sua biografia, mas o filme está à mão, no Netflix. Sua premiére ocorreu em 2015, no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Os matemáticos Ken Ono e Manjul Bhargava colaboraram no filme, que foi elogiado por especialistas da área.

— Florência Costa

Seja o primeiro a comentar em "O gênio indiano que conheceu o infinito e via na matemática a mais pura beleza: Srinivasa Ramanujan"

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*