O Ioga clássico e as evidências científicas: webinar debate os benefícios da prática que nasceu na Índia

Credito: Pixabay

As evidência científicas dos benefícios do Ioga, esta prática física, mental e espiritual nascida na Índia há muitos séculos, foram debatidas no webinar “Ioga para o bem-estar em tempos de Covid 19: abordagem clássica com evidência científica”, no último dia 11 de junho.

O evento online — que faz parte das comemorações do Dia Internacional do Ioga, no próximo domingo, dia 21 —  foi promovido pelo consulado geral da Índia em São Paulo, representado pelo consul Amit Kumar Mishra, e pelo Centro Centural Swami Vivekananda (CCSV), dirigido por Puja Kaushik.

O webinar contou com a participação de Vinay Sahasrabuddhe, presidente do Conselho Indiano de Relações Culturais (ICCR, na sigla em inglês), que coordena os centros culturais da Índia espalhados pelo mundo.

Lia Diskin, diretora da Associação Palas Athena —  que promove a cultura e as filosofias da Paz no Brasil — afirmou que a tradição do ioga no seculo 21 se torna mais  necessária do que nunca. As mudanças drásticas que vivemos desde há duas décadas do século passado até duas décadas deste século presente é um desafio para a compreensão da realidade, destacou Diskin. E o Ioga, segundo ela,  é um chamado à ação.

“É um chamado a compromissos como a não-violência,  com a honestidade, a transparência, a não apropriação indébita, inclusive dos recursos naturais, é um chamado à importância de não confundir as nossas necessidades com a avidez, com a ganância”. Lia diskin destacou que valores como individualismo, acumulação e competição não serão boas bússolas para a humanindade, não serão bons guias nestes tempos tão desafiadores.

Ela lembrou que há uma extraordinária pedagogia nos Ioga Sutras [os ensinamentos desta tradição  compilados há séculos pelo sábio indiano Patanjali]. “Assim, somos agentes de um impacto coletivo luminoso. Que nossa presença seja afirmativa na vida, que seja uma presença agregadora e fraternal. Ninguém quer estar em companhia daquele que amedontra, ninguém quer estar na companhia de aquele que humilha”, afirmou Diskin.

Subodh Tiwari, diretor do Instituto de Kaivalyadhama,  em Lonavla (no estado indiano de Maharashtra), e especialista no aspecto terapêutico do ioga, lembrou que a iogaterapia é um conceito de mais de mil anos e há vários textos antigos, escritos em Sânscrito,  sobre o assunto. Em sua palestra “Ioga como Terapia: História e Ciência”, Tiwari destacou que um dos papéis do ioga é a compreensão do aspecto mental. O representante do Instituto Kaivalyadhama ressaltou os aspectos multidimensionais  do ioga: o psicológico e o físico. Ele relacionou vários benefícos já verificados desta prática milenar para a sáude do corpo, como no processo respiratório e no ritmo cardíaco, por exemplo.

O professor de Ioga Marcos Rojo, uma referência desta prática milenar no Brasil, formado em Educação Física pela USP em 1975, com pós graduação em Ioga pelo Instituto Kaivalyadhama, ressaltou que essa prática tem ajudado a humanidade por séculos, independente de cultura, de local ou da época.

Credito: Linkdin

“O Ioga sobrevive porque se adapta. O ioga praticado hoje nas academias é diferente do ioga que os monges praticavam nos ashrams na Índia Antiga”, observou, em sua palestra “Ioga e Qualidade de Vida”. O professor Rojo explicou que o ioga não se modificou na essência, mas sim se adpatou.

“As adaptações não são ruins ou incoerentes. Elas preveem que os mestres consigam transmitir os benefícios adaptando para uma outra cultura. É assim mesmo, as coisas mudam. O que importa é que o ioga sobrevive e continua sendo útil, continua ajudando a humanidade com uma mensagem para o corpo e a mente e para a alma”, disse o mestre brasileiro.

O professor Rojo destacou que o ioga atua em todos os campos fundamentais para a obtenção de uma vida com qualidade: no corpo, na mente, na espiritualidade e nas relações sociais. O  aspecto espiritual do ioga, observou ele, já foi deixado um pouco de lado pelos praticantes.

“Se antigamente só buscavam ioga aqueles que procuravam saber quem somos e entender a razão da nossa existência, hoje sabemos que muitos procuram ioga por outros motivos. Recebo muitos alunos que vem indicados por médicos e fisioterapeutas, pessoas que querem diminuir o estresse, a tensão muscular, tratar uma dor lombar. Também recebo alunos indicados por professores de educação fisica porque eles querem melhorar a concentraçãoe o desempenho”, contou. Rojo disse que todos são bem vindos, mas a obrigação do professor de ioga é mostrar que o universo dessa prática é mais amplo.

“Procurar ioga para ter desempenho melhor, mergulhar mais fundo, subir mais alto na montanha, é uma subutilização da prática. Nao é ruim, o ioga vai ajudar. Mas é improtante que a gente mostre que o ioga é mais do que isso”, disse. “O ioga é sim qualidade de vida, mas mais do que isso, o ioga dá qualidade às nossas vidas. O ioga é fazer da nossa vida uma vida que interessa, uma vida com sentido. E quem dá sentido às nossas vidas é nós mesmo”, afirmou.

O professor Rojo citou alguns pontos que dão sentido às vidas: o hábito de agradecer, por exemplo. “Mesmo nesse período de quarentena,  temos o que agradecer. Isso vem  do desenvolvimento de hábitos simples, de agradecer quando se acorda, quando vamos praticar ioga, quando vamos trabalhar”, exemplificou.

Fazer pelos outros sem esperar algo em troca também é fundamental, disse ele: “Nesse momento em que vivemos, temos muito o que ajudar. Tanta gente está precisando. Se tivermos um pouco mais de atenção ao outro, isso dará qualidade às nossas vidas”. O professor brasileiro lembrou ainda a importância da determinação para fazer as coisas e a disciplina, como forma de não deixar que a mente nos conduza para pensamentos catastróficos.

Outro especialista em Ioga e meditação, com sete livros publicados, o indiano  R. S. Bhogal falou sobre a natureza do Ioga clássico e as evidências de seus benefícios. Bhogal, com mais de 35 anos de pesquisas na área e editor da publicação indiana “Yoga Mimansa”,  também integra o Instituto Kaivalyadhama, em Lonavla. “Ioga e meditação não são coisas diferentes. São a mesma coisa. Meditação é parte do ioga”, afirmou.

Danilo Forghieri Santaella, professor de Ioga na USP, com pós-doutorado em neurociência e biologia, e integrante do “Global Consortium of Yoga Therapy”, fez um relato das pequisas cient[ificas que comprovam os benefícios do Ioga clássico. Um livro referência no assunto é o “The Principles and Practice of Yoga in Health Care”, de Sat Bir Singh Khalsa, Lorenzo Cohen, Timothy McCall e Shirley Telles, sobre a ciência e a terapia do ioga nos tratamentos de saúde. A obra contém capítulos de pesquisadores da área da biomedicina, como o próprio professor Danilo, em um capítulo sobre a influência do ioga na neurofisiologia.

livro referência sobre pesquisas científicas acerca
dos benefícios do ioga. Crédito Amazon

O especialista brasileiro diz que o Ioga Sutra de Patanjali [texto milenar sobre essa prática compilado pelo sábio indiano Patanjali] é completo. “Ele começa afirmando que esta é uma exposição da auto-disciplina do Ioga”, diz. A mente divaga muito e precisa ser colocada sob a atenção de uma consciência superior para que, assim, vá se tranquilizando. “A neurociência constata que quanto mais você fica nessas divagações mentais, mais tende a desenvolver uma coisa negativa,  que é a ruminação”, explicou.

Segundo Santaella estudos do qual ele participou –  liderados pelo Instituto de Estudos e Pesquisa em Yoga (IEPY), pela Universidade e São Paulo (USP),  pelo Instituto do Cérebro do Hospital Albert Einstein, e pela faculdade de medicina de Harvard –  mostram que quando se envelhece praticando ioga existe uma preservação de áreas cerebrais importantes para a cognição e para a memória.

“Conseguimos mostrar na pesquisa que as partes da frente e de trás do cérebro se comunicam de uma maneira mais eficiente nas pessoas idosas qua praticam ioga há pelos menos 8 anos. Mas não adianta esperar envelhecer para depois começar a praticar técnicas de auto-observação e concentração como orientadas pela tradição do ioga”, observou.

As práticas dos asanas, pelo ioga tradicional de Patanjali, é justamente para permitir que a pessoa consiga meditar, que  a mente divague no infinito na meditação.   Nos estudos citados por Santaella, foram comparados grupos de pessoas que além de fazer ioga, praticavam atividade física.

“O grande diferencial é a meditação, a contemplação, a atenção e a minimização do Eu”, explicou. “Precisamos ser não violentos, verdadeiros nas atenções daquilo que eu observo para que meu corpo mostre para a minha mente que está tudo bem, mesmo em tempo de Covid 19”, afirmou Danilo Santaella.

— Equipe Beco da Índia

Seja o primeiro a comentar em "O Ioga clássico e as evidências científicas: webinar debate os benefícios da prática que nasceu na Índia"

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*