O que Shiva faz no maior laboratório do mundo?

Estátua de bronze da Shiva Nataraja no CERN. Crédito: Leandro de Paula

Tubos gigantescos, fios e cabos escondidos muitos metros abaixo da terra. Dentro de imensos túneis aceleram-se e chocam-se partículas subatômicas. O complexo do CERN (Organização Europeia para Pesquisa Nuclear) parece uma cidade habitada por técnicos e cientistas que buscam incessantemente entender questões como o Big Bang, o início de tudo.

Após caminhar nesse subsolo fantástico, em uma visita em 2009, fui convidada para voltar à superfície para ver o resto do complexo por dois físicos brasileiros que trabalham em experimentos do CERN: Leandro de Paula e Miriam Gandelman.

Para quem vivia na Índia, como eu (de 2006 a 2012), foi agradável surpresa avistar, naquele templo da ciência, uma escultura de bronze de dois metros de altura do deus hindu Shiva.  Ali estava ele, com toda a sua elegância e simbologia mitológica: a estátua de Nataraja, o avatar dançante de Shiva, a divindade hindu que simboliza a destruição que precede a criação.  

Na Índia, eu estava acostumada a ver Shiva esculpido em rochas e cavernas de muitas centenas de antos atrás.  Era como se Shiva estivesse ali para supervisionar a coreografia das “danças” das partículas subatômicas. A estátua foi presenteada ao CERN pelo governo da Índia.  Isso foi em 2004,  cinco anos antes da minha visita ao CERN.

Diz a mitologia indiana que Shiva, o terceiro pilar do trimurti (o trio de deuses Brahma, da criação, Vishnu, da preservação, e Shiva, da destruição), vive na montanha sagrada de Kailasa, nos Himalaias. Este deus surge em várias formas ao longo de milhares de anos: pode estar vestido com pele de animal, com os cabelos emaranhados, pode aparecer como um ser hermafrodita.

Tunel do LHC no CERN: experimento de choque de particulas. Crédito: Florencia Costa

Ali, na fronteira da Suíça com a França, sua aparição é como Nataraja, simbolizando a colisão de altas energias de partículas físicas. A mitologia hindu diz que Shiva, com sua dança, criou o universo, o mantém e eventualmente vai extingui-lo.

A primeira coisa que me chamou a atenção naquela surpresa foi a elegância da pose dessa divindade que dança em todo o universo.

 Ele está no meio de um círculo de fogo, com suas chamas projetando-se para fora: é o círculo da massa, energia, espaço e tempo.

O emaranhado dos cabelos de Shiva são o de um iogue contemplativo.  Eles voam para os lados, lembrando as águas sagradas do Rio Ganges, como explicou Jill Cook, curadora do British Museum.

Prestei a atenção em cada um de seus quatro braços. Com o braço superior direito, ele segura o damuru, tambor que, com suas vibrações, cria o universo. Seria o Big Bang? O braço esquerdo superior segura o fogo da destruição, que na verdade é da transformação, a constante mudança.

Veja aqui este depoimento em vídeo de Jill Cook:

 O braço direito inferior sinaliza que apesar de todos os perigos, não é preciso temer: as mudanças constantes são normais. O braço esquerdo inferior aponta para os seus pés. Com um deles, Shiva esmaga uma figura do mal, a ignorância, ou o ego, um das emoções destrutivas descritas por Buda. O outro pé, suspenso, aponta para o caminho da contemplação: a libertação da ignorância.

“Shiva Nataraja é um dos grandes símbolos das tradições hindus. Shiva aqui aparece dançando, trazendo o mundo para a criação. É um símbolo maravilhoso, que evoca as energias de toda a vida. O Shiva Nataraja está lá no CERN, o centro de física nuclear, na Suíça, como um símbolo de como a ciência está tentando entender as partículas subatômicas, que são a própria base da matéria. À noite, a sombra da estátua é lançada sobre todo um prédio porque essa é a energia das partículas, a dança das partículas que tornam possível a matéria e a vida”, explica Jill Cook, curadora do British Museum.

Encarar esta escultura, feita na Índia, é um exercício de reflexão: não tem como não lembrar quem somos, desde o nosso elemento mais invisível. Os primeiros registros de Shiva  surgiram ainda como uma espécie de proto-Shiva, na civilização do Vale do Indo, ou a Civilização Harappa (entre 3.300 a.C e 150 a.C), na região hoje pertencente parte à Índia e parte ao Paquistão.

No século XXI, Shiva Nataraja permanece uma simbologia cósmica, psicológica e espiritual, como resumiu certa vez o escritor britânico Aldous Huxley (1894- 1963).

— Florência Costa

1 comentário em "O que Shiva faz no maior laboratório do mundo?"

  1. Shiva foi doada pelo governo da India? Como ela foi parar aí no laboratório?

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