Por que cultivar a paciência e como lidar com a raiva e as perdas, segundo um mestre budista da antiguidade?

Shantideva, monge budista indiano do século 8

A paciência é uma grande catalisadora das demais virtudes, segundo Shantideva, monge budista indiano do século 8, que ensinou como lidar com as perdas e com a raiva

Buda considerava a paciência como um dos estados mentais aperfeiçoados por uma pessoa iluminada. Shantideva, um importante monge budista do século 8, explicava como a paciência e a tolerância são catalisadores das demais virtudes em sua obra mais proeminente: Guia do Estilo de Vida do Bhodhisattva. O pensamento de Shantideva é utilizado até hoje por mestres budistas de diversas tradições para ensinar o caminho do cultivo espiritual.
Estudioso da Universidade de Nalanda na Índia Antiga, o maior centro de ensino budista da época, Shantideva foi um seguidor da escola de pensamento Madhyamika (Caminho do Meio), desenvolvida pelo grande filósofo indiano Nagarjuna.

Um dos capítulos mais importantes do Guia do Estilo de Vida do Bhodhisattva é justamente o que ensina a cultivar a paciência e a tolerância. É importante notar que Shantideva não falava como guia de uma trilha de autoaperfeiçoamento constante, mas mostrava que esse caminho passava por alegrias e tristezas.

A paciência ou tolerância (“Kshanti”, em Sânscrito) permite atingir um estado livre das emoções perturbadoras e é chave para o surgimento da completa iluminação. E para aperfeiçoar a sua capacidade de ter paciência nada melhor do que exercitá-la.

Shantideva aconselhava, assim, que deve-se olhar para as pessoas que nos perturbam, ou causam problemas não como inimigas, mas como fontes de oportunidade para exercitar a paciência. É um conselho radical e difícil de ser seguido, mas que carrega muita sabedoria. Um prática que sem dúvida nenhuma é bastante desafiadora.

Pintura (1800-1899) . Crédito: Tibet House Museum,
New Delhi

Sobre perdas e raiva
O livro de Shantideva possui metáforas esclarecedoras sobre o que ele quer dizer com paciência, sobre aceitar as adversidades, as perdas. As causas do sofrimento são inúmeras e as da felicidade são raras. É preciso aceitar isso para evitar frustração.

Ou seja, a dor é inevitável, mas o sentimento emocional que pode surgir com ela é opcional. Um exemplo envelhecer é inevitável, mas tentar tentar evitar esse processo é motivo de forte frustração.

Shantideva também falava sobre o sentido na dor. A perda de uma pessoa querida provoca dor, mas não aceitá-la é complicado. Existe uma famosa história contada por budistas que ilustra isso. Buda disse a uma mãe que não aceitava a morte da filha pequena que fosse buscar sementes de mostardas das todas as casas do vilarejo que não tivessem sofrido perdas. Isso iria aliviar a sua dor. Foi assim que a mãe percebeu que a perda era comum a todos. A perceção da natureza da realidade resulta na aceitação.

Shantideva observava que quanto mais não se quer algo , maior a sensação de perda. Por isso, é preciso encontrar significado na perda, o que permite também entender o sofrimento do outro. Mas isso não significa aceitar a dor e não fazer nada. É preciso ampliar a visão sobre o problema e buscar o que se pode ser feito.

Uma famosa frase atribuída a Shantideva é: se você tem um problema e tem solução, então não existe o problema, mas se você tem um problema sem solução, então por que se angustiar.

Do ponto de vista Budista, a paciência é considerada como um atídoto para a raiva. As principais emoções venenosas ou destrutivas são a raiva, o apego e a ignorância. Shantideva faz uma análise extensa da raiva.

Apesar de a raiva ser uma das emoções mais destrutivas, uma parcela dela é aceitável, como explicouArun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi no livro “A Virtude da Raiva – e outras lições espirituais do meu avô Mahatma Gandhi” (Editora Sextante) em um livro lançado no Brasil. Em alguns casos, a raiva tem benefícios, já que ela é necessária para reagir contra abusos e injustiças sociais.

Leia a matéria sobre a visita de Arun Gandhi ao Brasil publicada pelo BECO DA ÍNDIA

Há uma diferença entre raiva e ódio, que é uma aversão das entranhas. Diferentemente da raiva, não há aspectos positivos no ódio. Shantideva apontou os combustíveis da raiva. Por exemplo: quando se encontra algo que não quer ou não se encontra algo que quer, nasce a frustração, um poderoso combustível da raiva.

Guia para o modo de vida do Bodhisattva

Shantideva explicou as consequência visíveis e invisíveis da raiva e do ódio. A raiva sustentada é tóxica, acaba com a paz da mente, distorce as falas e não produz nada de positivo. Ninguém gosta da raiva: “Estou feliz porque estou com raiva”.

A metáfora da raiva é bastante esclarecedora: quanto mais você agarrar o objeto de metal quente (a raiva), mais dor vai sentir. É preciso compreender a situação, entender o que causa aquela emoção destrutiva. Isso ajuda a soltar o objeto de metal quente.

Quando uma pessoa te agride – refletia Shantideva – não se deve ficar com raiva dessa pessoa porque ela está sendo usada por essa emoção destrutiva. É preciso fazer uma distinção entre a pessoa e as suas ações. A ação deve ser transformada. Perdoar não é incentivar a violência, perdoar a pessoa não é perdoar a ação.

Um exemplo bastante ilustrativo disso: um paciente agride o médico porque está doente. Mas um bom médico não vai sentir raiva do paciente, vai ficar preocupado com ele.

A meditação analítica, ensinada por Buda, permite ver situações sob novas perspectivas, lança outra luz sobre as adversidades e permite a mudança da reação emocional. Se essa meditação for só intelectual, vai ter pouco impacto. Se se essa meditação for pessoal, espontânea, vai surtir efeito com o tempo.

Shantideva pregava uma estratégia imediata: permanecer como uma árvore diante de uma adversidade. Desconectar do que está nos irritando e levar a atenção para a respiração. Ou seja, fazer uma pausa antes de reagir. Não se trata de uma meditação devocional ou apenas para acalmar a mente, mas do treinamento da mente.

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