Por que o ‘namaste’ tornou-se perfeito na pandemia

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Jeremy David Engels, The Conversation *

As palmas das mãos estão juntas na altura do coração em pose de oração. A cabeça se curva levemente. Trata-se de um gesto de respeito, um reconhecimento de nossa humanidade compartilhada. E sem precisar tocar no outro.

Enquanto as pessoas em todo o mundo estão optando por abandonar os apertos de mão e os abraços, com medo de contrair o coronavírus, o namastê está se tornando a saudação pandêmica perfeita.

Como acadêmico cuja pesquisa se concentra na ética da comunicação e como um professor de ioga, estou interessado em entender como as pessoas usam rituais e retórica para afirmar sua interconexão umas com as outras – e com o mundo.
O namastê é um desses rituais.

Eu me curvo a você

Namastê é originalmente uma palavra do Sânscrito composta de duas partes: “namas” significa “curvar-se para”,  ou “honra para”; e “te” significa “para você”. Então, namastê significa “Eu me curvo diante de você”. Este significado é freqüentemente reforçado por uma pequena curvatura da cabeça.

Em Hindi e em várias outras línguas derivadas do Sânscrito, namastê é basicamente uma maneira respeitosa de dizer “olá” e também de dar adeus. Hoje, o namastê foi adotado na língua inglesa, junto com outras palavras de fontes não inglesas. Muitas palavras, quando emprestadas, mantêm sua grafia, mas adquirem novos significados. Este é o caso do namastê, cujo significado mudou de “Eu me curvo diante de você” para “Eu me curvo ao divino que existe em você”.

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Para muitos professores de ioga americanos, começando provavelmente com Ram Dass nas décadas de 1960 e 1970, namastê significa algo como “a luz divina em mim se curva para a luz divina dentro de você”. Esta é a definição de namastê que aprendi pela primeira vez e sempre repeti para meus alunos.

Leia a matéria: Nada de beijos ou abraços. A moda agora é o Namastê

Nas palavras da popular professora de ioga americana Shiva Rea, namastê é “a consumada saudação indiana”, um “olá sagrado”, que significa “Eu me curvo diante da divindade que existe dentro de você, vinda da divindade dentro de mim”.

Deepak Chopra repete uma definição semelhante em seu podcast “The Daily Breath with Deepak Chopra”: namastê significa “o espírito em mim honra o espírito em você” e “o divino em mim honra o divino em você”.

Namastê tem uma conotação sagrada. Quando você se curva para outra pessoa, você está honrando algo sagrado nela. Quando você se curva para outra pessoa, está reconhecendo que ela é digna de respeito e dignidade.

Eu me curvo à luz divina que existe em você

No entanto, há críticos que dizem que os iogues globais tiraram o namastê de seu contexto. Alguns afirmam que a saudação foi infundida com um significado religioso que não existe na cultura indiana.

Eu vejo as coisas de forma diferente. Muitas saudações comuns têm raízes religiosas, incluindo adios, ou “a Dios”, a Deus, e adeus – uma contração de “Deus esteja com você”.

A maioria das religiões indianas concorda que há algo divino em todos os indivíduos, seja uma alma, chamada de “atman” ou “purusha” no hinduísmo, ou a capacidade de despertar no budismo.

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Como argumento em meu próximo livro, “The Ethics of Oneness: Emerson, Whitman e o Bhagavad Gita”, essa ideia de se curvar ao divino nos outros também ressoa com uma profunda inclinação espiritual na cultura americana.

A partir das décadas de 1830 e 1840, o influente filósofo e ensaísta Ralph Waldo Emerson, em diálogo com vários outros pensadores, inventou uma forma de prática espiritual que incentivou os americanos a se dirigirem ativamente à alma divina dos outros sempre que falassem.

Digno de nota é que Emerson costumava usar a metáfora da luz para imaginar essa divindade interior, provavelmente por causa de sua grande admiração pelos quakers, cuja denominação cristã afirma que Deus vive dentro de todos nós na forma de uma “luz interior”.

A definição de namastê como “a luz divina em mim se curva para a luz divina em você” está muito no espírito das religiões indianas e das tradições do século 19 da espiritualidade americana.

Namaste como compromisso ético

Na cultura global de ioga de hoje, o namastê é normalmente dito no final da aula. Pelo que entendi, para os iogues, dizer namastê é um momento de contemplar as virtudes associadas à ioga – incluindo paz, compaixão e gratidão e como trazê-las para a vida diária.

Perguntei a Swami Tattwamayananda –  chefe da Sociedade Vedanta do Norte da Califórnia, em São Francisco, e uma das maiores autoridades mundiais em rituais e escrituras hindus – como ele se sentia em relação a americanos como eu quando dizem namastê.

Ele respondeu: “É perfeitamente apropriado para todos, incluindo ocidentais como você, dizer namastê no final das aulas de ioga”. Ele também reiterou que namastê significa “Eu me curvo diante de você” – no sentido de que eu me curvo à presença divina em você.

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Não é preciso ser hindu, budista ou professor de ioga para dizer namastê. Namastê pode ser tão religioso ou secular quanto o palestrante desejar.

Eu acredito que o que mais importa é a intenção por trás da palavra namaste. Quando você se curva para outra pessoa, a questão a considerar é a seguinte: Você realmente o reconhece como um ser humano que merece dignidade, unido em um sofrimento compartilhado e uma capacidade compartilhada de transcendência?

Este reconhecimento de nossa interconexão é o que tem tudo a ver com namastê – e é exatamente o que precisamos durante a pandemia.

Jeremy David Engels é Professor da Faculdade de Comunicação, Artes e Ciências, Penn State, Universidade de Pennsylvania (EUA).  O artigo foi publicado no site The Conversation em 30 de setembro de 2020.

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