Por que os tecidos são um símbolo da independência?

Tecidos indianos. Crédito: Pexels

Durante muitos séculos, a Índia ficou conhecida como uma superpotência têxtil

Durante muitos séculos, a Índia ficou conhecida como uma superpotência têxtil. Seus produtos dominavam o mundo: roupas sedosas, algodões macios com tingimentos coloridos e exuberantes, estampados com técnicas únicas. Mas tudo mudou a partir do século 19.

A história dos tecidos é especialmente lembrada na Índia no dia 7 de agosto, quando celebra-se o Dia Nacional do Tear Manual. Em 1905, o Movimento Swadeshi  lançou, naquela data, uma campanha para boicotar artigos estrangeiros, incentivando o consumo de produtos feitos apenas na Índia.

Pesquisas arqueológicas revelaram a tecelagem existia na Índia desde a chamada Civilização Harappa ( 3 mil a.C a 1500 a.C). As técnicas de tingimento, com cores intensas que não desbotam, são conhecidas na Índia desde o século II a.C. O clima favoreceu a plantação de algodão e esse produto acabou tornando-se popular em todo o mundo.

Um vídeo da Nutshell, produtora de conteúdo que integra a Pocket Aces, empresa digital de entretenimento da Índia, conta a história de como a Índia influenciou o mundo da moda globalmente, devido a seus tecidos variados e especiais.

Tear manual. Crédito: Wikimedia Commons

Quando Alexandre, o Grande e seu exército desembarcaram na Índia em 326 a.C, ele percebeu que o algodão do local era muito mais confortável.  No século II, o algodão indiano já era comercializado na Grécia e em Roma. A Índia tinha um tecido muito leve e macio, um algodão bem simples chamado “muslin”.

Os tecidos indianos eram populares não apenas no Ocidente, mas no extremo Oriente. No século 13, o viajante Marco Polo registrou em suas crônicas de viagem pela Ásia que a Costa de Coromandel era onde o melhor tecido e o mais bonito era feito. Esses tecidos especiais eram exportados para a China e para o Sudeste da Ásia.

Sob o governo dos imperadores mogóis, entre o século 16 e 18, houve um grande desenvolvimento dos tecidos indianos com motivos florais e estilizados. Acredita-se que isso se deveu ao primeiro imperador da dinastia muçulmana dos mogóis, Babur (governou entre 1526 e 1530), que amava as flores. Influências chinesas e europeias resultaram em mudanças durante os séculos, mas os padrões florais são comuns até hoje.

O processo indiano de tingimento das roupas também tem métodos únicos que permitem a fixação das cores. Nos séculos 16 e 17, os tecidos indianos eram vendidos praticamente em todos os continentes habitados.

O segredo do sucesso dos tecidos indianos, segundo historiadores, estava na forma única com que eles faziam negócios, dando muita atenção ao gosto dos fregueses. Os tecidos vendidos em um país eram diferentes dos vendidos em outros. Somente no Sudeste da Ásia os indianos vendiam 150 tipos de tecidos.

Os tecelões indianos eram muito habilidosos e o processo de tingimento, bastante rápido. As estampagens intrincadas faziam dos tecidos indianos um produto especial.

No início dos anos 1600, a Companhia Britância das Índias Orientais  e a Companhia Holandesa das Índias Orientais  se apoderaram da Índia com a missão de expandir o comércio de exportação de produtos indianos.

Tudo começou com os navios carregando prata e ouro para a Índia e levando de volta para a Europa tecidos de algodão, que eram usados não apenas para fabricar roupas, mas também como moeda de troca em outros lugares do mundo.

Quando os tecidos indianos passaram a ser vendidas na Europa, a moda começou a mudar dramaticamente lá. Era possível ter roupas mais macias e menos restritivas, adaptáveis para situações formais e informais. Muitos consideravam os tecidos indianos democráticos e progressistas, por serem mais baratos e acessíveis para todas as classes.

Em meados do século 18, devido à revolução industrial, a demanda e o suprimento de tecidos aumentou. A moderna indústria têxtil nascia na Índia em 1818, com o estabelecimento da primeira fábrica em Fort Gloster , perto de Calcutá.

Sari indiano. Crédito: pxhere

Mas sob o Império Britânico, a indústria têxtil indiana se enfraqueceu. Os britânicos aumentaram impostos e criaram restrições que ditavam preços e termos de venda.  Os produtores indianos não conseguiam sequer cobrir seus custos de produção.

As fábricas europeias começaram a produzir, em larga escala, cópias baratas dos produtos indianos. No século 19 a Índia já era um das maiores importadoras mundiais de tecidos da Inglaterra.

Mas a Índia começou a reivindicar o que era seu com o poder da Charkha, o tear que tornou-se o símbolo da independência. O líder Mahatma Gandhi encabeçou protestos, como os de queimar roupas britânicas em público.

O próprio Gandhi produzia a sua própria roupa nesses teares e incentivava os indianos a fazer o mesmo. O tecido que ele produzia, chamado de Khadi, é também um forte símbolo político até hoje.

Desde a independência, em 1947, a Índia tem concentrado esforços para reviver seu rico legado têxtil. Mas os tecelões pequenos ainda enfrentam muitos desafios, necessitando de melhor infraestrutura e facilidade de acessso para os mercados consumidores.

— Equipe Beco da Índia

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