Professor Marcos Rojo: ‘O yoga tem uma grande mensagem para esse mundo de ansiedades’

Crédito: Arquivo de Marcos Rojo

O professor de Yoga Marcos Rojo participou de uma live na página do Facebook do Centro Cultural Swami Vivekananda (CCSV), em evento online relacionado ao Dia Internacional do Yoga

Há muitas décadas o yoga desembarcou no Brasil. O país teve vários mestres excelentes. Essa prática física, mental e espiritual nascida na Índia já teve seu momento de moda no Brasil, encarada como fitness. Mas hoje começa a se voltar um pouco para a tradição indiana, nesses tempos extremos, de conflitos e angústia, conta o professor Marcos Rojo, uma referência do yoga no país. Os especialistas em yoga brasileiros tem entrado em campo em outras áreas para ajudar em hospitais, escolas e presídios.

O professor Rojo descreveu o cenário do yoga no Brasil durante uma live na página do Facebook do Centro Cultural Swami Vivekananda (CCSV), ligado ao consulado-geral da Índia em São Paulo, da qual participou também a diretora do CCSV Puja Kaushik. Foi um evento online que faz parte das comemorações do Dia Internacional do Yoga, estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para o dia 21 de junho. Nessa entrevista, feita pela jornalista Florência Costa, do BECO DA ÍNDIA, o professor explicou como o yoga pode nos ajudar em meio à pandemia da Covid 19 e disse que está muito otimista com o futuro dessa prática no Brasil.

BECO DA ÍNDIA (BI): O Sr. fez Educação Física na Universidade de São Paulo (USP) e depois migrou para o Yoga. Como foi essa transição?
MARCOS ROJO (MR) : Me formei em 1975 em  Educação Física. Na época, os olhos do mundo se voltavam para a Índia, os Beatles tinham ido para lá para fazer meditação transcendetal,  os hippies também. Aquilo me atraiu muito, eu gostava dos Beatles, especialmente do George Harrison, e ele costumava ir para Rishikesh. Eu queria ir para lá também. No último ano da faculdade, fiz yoga como disciplina optativa e gostei muito. Desde então comecei a praticar, mas não pensava em trabalhar com yoga. Minha professora na faculdade de Educação Física foi Ignez Novaes Romeu, que representava no Brasil a escola indiana de Kaivalyadhama. Após me formar, quis me aprofundar, mas os cursos que existiam aqui no Brasil eram poucos. Por isso fui para a Índia, com a minha esposa [Daisy Rodrigues]. Ficamos na Escola de Kaivalyadhama, na cidade de Lonavla [estado indiano de Maharashtra]. Eu já gostava da ênfase dessa escola e ficamos 9 meses lá na Índia, de 1979 a 1980. Em 1982, fui convivado pela USP para trabalhar lá e aceitei. Hoje só trabalho com yoga e estou muito feliz com isso. Trabalhei na USP por 35 anos. Me aposentei em 2016.  Fui também professor de ginástica geral da faculdade de Educação Física da FMU,  onde montamos um curso de especialização em yoga.  Depois passei o curso para USP. Senti ter a necessidade de ter um instituto e  criamos o Instituto de Ensino e Pesquisas em Yoga (IEPY), e fizemos uma parceria com a USP. O meu grande orgulho foi juntar vários professores. Não é o curso do Marcos Rojo, nunca foi.  É o  curso do IEPY, são vários professores.

Familia Rojo. Crédito: Arquivo Marcos Rojo

BI : Qual é a característia dessa escola indiana na qual o senhor se formou?
MR :  A escola de Kaivalyadhama foi criada em 1924 por Swami Kuvalayananda em Lonavla, na Índia. O centro de estudos de Lonavla renovou a linguagem do yoga e foi pioneiro em promover pesquisas que comprovassem os seus efeitos, abrindo caminho para sua aceitação e afirmação da prática como técnica e disciplina científicas em todo o mundo. Swami Kuvalayananda foi discípulo de Madhavadasa, um grande mestre do estado do Gujarat, no Oeste da Índia, líder de um grupo de yogues no final do século 19, início do século 20. Madhavadasa já dizia naquela época que o yoga teria que ser pesquisado em laboratório porque iria para o Ocidente. Ele dizia que teríamos de falar a linguagem do Ocidente,  senão nós mesmos ficaríamos confusos com os benefícios e a importância do yoga. Se o yoga deveria continuar existindo, deveria provar a sua eficiência.  Madhavadasa estimulava  muito o estudo e a leitura e recomendava os estudos para seus discípulos. Então, hoje, a linguagem que a gente adota é a ocidental. Hoje falamos dos benefícios que a ciência pode comprovar, mas sem prejuízo da tradição, sem distorcer o yoga.

BI : Qual é a importância do yoga nos dias de hoje, em que enfrentamos a pandemia do novo corovanírus?
MR : O yoga nunca foi tão importante quanto nesses tempos de pandemia e também de consumo exagerado. Nesse mundo em conflito, dividido, o yoga se torna uma peça essencial  para ajudar as pessoas a modificar a sua forma de pensamento.  Mas ao mesmo tempo, o yoga nunca correu tanto risco de ser modificado, de ser mal interpretado, como nos dias de hoje.  O yoga chega no Ocidente e vira objeto de competição, de exibicionismo.  O que o Swami Kuvalayananda fez foi lançar as bases científicas, averiguar os textos importantes do Hatha Yoga. Essa é a missão da escola de Kavalyadhama. 

Madhavadasa. Crédito:
Arquivo Marcos Rojo

BI : Foi o primeiro instituto a pesquisar o Yoga?
MR : De 1924 até 1950, nenhum outro instituto no mundo havia pesquisado o yoga. Em 1950, as pesquisas começaram  a surgir na Índia, mas elas sempre se basearam no que a escola de Kaivalyadhama já tinha. A partir do ano 2000,  o yoga começa a ser muito pesquisado. Hoje, pesquisas de yoga e meditação acontecem majoritariamente nos EUA. A Índia fica em segundo lugar. Swami Kuvalayananda foi um visionário ao lançar as bases científicas para que o yoga fosse aceito como uma disciplina que veio para somar e não para dividir.

BI : Como é o cenário do yoga no Brasil?
MR :  Os brasileiros foram presenteados com grandes mestres. Vieram professores de fora, alguns da Índia e eles foram uma grande contribuição. Quatro professores se destacaram e formavam uma linha de pensadores e de praticantes de yoga. O professor Caio Miranda, do Rio de Janeiro, um militar, se interessava muito pela tradição e traduziu os primeiros textos importantes do Hatha Yoga.  O professor Hermógenes, um dos pioneiros  de yoga no Brasil, enfatizava o yoga da atitude, o yoga do comportamento,  o yoga dos Yamas e Niyamas [preceitos éticos e morais do yoga]. Ou seja, um yoga que faz com que você seja uma pessoa melhor, modifique as suas atitudes. O professor Hermógenes dava o trabalho de asansa, de pranaiamas (respiração), mas ele falava muito dos Yamas e Niyamas. Havia também o professor Shimada, pioneiro em São Paulo. A minha professora, Dona Ignez, foi aluna do professor Shimada, que tinha um viés científico. Ele sempre disse que gostaria de ter sido um médico, mas como vinha de uma família muito simples, não conseguiu . Mas trouxe esse caráter científico, estudava, pesquisava. A professora Celeste Castilho, aluna do professor Shimada e amiga do professor Hermógenes, foi muito importante também. Ela, que também pertencia à escola Kaivalyadhama, levou o yoga para todos os clubes de São Paulo. Ela popularizou muito yoga. Esses eram professores autoditadas, que não foram para Índia porque naquela época era mais difícil.   Eles fizeram um trabalho espetacular. Depois houve um tempo em que uma certa geração se dividia em feudos. Se você pertencesse ao grupo de um determinado professor de yoga, não poderia conversar com outro. Existia muito ego, mas por sorte passou rápido.  E aí vem uma outra geração, na qual me incluo. Todos conversamos muito bem, nos convidamos reciprocamente para eventos, mesmo pertencendo a escolas diferentes.

professora Ignez. Crédito
Arquivo Marcos Rojo

BI : Existe uma percepção de que o Ocidente valorizou apenas o aspecto físico do yoga, que virou uma disciplina física, ignorando a tradição indiana, com seu aspecto mental e espiritual. No Brasil isso também aconteceu?
MR : O Brasil seguiu um pouco os EUA nessa linha, permeada por conceitos e valores próprios do Ocidente. Na Índia, o asana, o exercício, era visto como uma estratégia para que você adquira sensações importantes no caminho da meditação.  Ou seja, através do trabalho de corpo, a pessoa se sente leve, estável, confortavel e relaxada. Essas sensações nos impulsionam para a meditação. A prática das asanas faz a pessoa começar a ter vontade de ficar sentada, quieta. Mas quando o yoga chega na cultura ocidental, começamos a ver valores realacionados com a estética. Eu cansei de ver revistas enfatizando que o yoga tira gordurinhas e pneuzinhos. Fico imaginando os antigos gurus em suas cavernas preocupados com os pneuzinhos e celulites. Isso é uma deformação. O yoga não é para o corpo. O corpo é uma ferramenta. O grande desafio é ficar sentado quieto por meia hora, e gostar.  Mas essa onda trouxe muita gente para o yoga. Então, não é uma onda totalmente negativa. Eu vejo isso com certo otimismo. A tradição vai permanecer. Só que o yoga não é mais a bola da vez.  Foi há 10 anos. Todas as academias tinham aula de yoga. Depois veio o pilates, o treinamento  funcional, o crossfit.  Hoje, o yoga começa a voltar para a sua tradição. O yoga tem uma grande mensagem para esse mundo de ansiedades de conflitos, de raiva. Muita gente tem se interessado por yoga. Mas é preciso dizer que yoga é meditação.

Swami Kuvalayananda. Crédito: eSamskriti

BI : O que o professor de yoga deve fazer quando o aluno procura apenas o aspecto físico?
MR : Ainda que muitos tenham sido atraídos pelo aspecto físico, nada disso é ruim. Compete ao professor dizer: tudo bem, estou trabalhando com aspectos físicos, mas o yoga é mais do que. Swami Kuvalayananda dizia que o yoga tem uma mensagem para o corpo, para a mente e para a alma. Eu recebo alunos recomendados por médicos e fico feliz: não os rechaço dizendo que o yoga é uma linha espiritual. Eu sempre explico que o yoga é mais do que isso. Esse é o trabalho do professor. Na USP eu treinei muitos atletas, como a equipe brasileira que escalou o Everest, a seleção brasileira de ciclismo, mergulhadores, o técnico do Rubens Barrichello. Mas eu sempre dizia:  se você quer praticar ioga para correr mais rápido, para mergulhar mais fundo ou para subir mais alto na montanha,  nós vamos treinar os pranaiamas e praticar os exercícios, mas isso é uma subutilização do yoga. O sistema é muito mais complexo do que isso. O sistema quer que você ache as respostas para questionamentos,  como a razão da nossa existência, por exemplo.

BI : O que o sr diria para as pessoas que sofrem com ansiedade e não conhecem o yoga?
MR : Eu sei por experiência própria o que é isso. Eu sou uma pessoa ansiosa. Eu faço yoga para me acomodar.  Me perguntam: mas como o senhor pratica yoga há 40 anos e é ansioso?  É da natureza de algumas pessoas, a gente nasce com isso. Mas como eu trabalho com a minha ansiedade, faz parte daquela disciplina que eu tento seguir e aplicar para mim mesmo.  No yoga não há só as técnicas de asanas e pranaiamas. Há também Yamas e Niyamas, ou seja, atitudes importantes que a pessoa deve tomar no caminho espiritual, como a não violência, a verdade, não pegar o que nao é seu, não acumular coisas,  fazer tudo de forma sagrada, desenvolver o contentamento. Isso tudo pode ajudar as pessoas na convivência com outros dentro de casa. Devemos ajudar os outros, parar de pensar um pouco em nós mesmos. Assim que começou a quarentena,  começamos a fazer lives no Instagram. A minha família toda me ajuda, meus filhos e minha esposa praticam e dão aulas. Foi muito bom. Não imaginava que fazendo essas lives, isso iria nos ajudar. Nossa vida ficou muito interessante. Antes, eu dava aula na academia para 30 pessoas. Nas lives tem  600 pessoas. Essas aulas são programaadas para serem muito fáceis, sem riscos, mas mesmo assim elas tem efeito.

Professor Marcos Rojo na Índia, em 1979.
Crédito: Arquivo de Marcos Rojo

BI : Como tem sido o retorno das pessoas?
MR : As pessoas mandam mensagens muito carinhosas. Muitos não praticavam yoga. Recebi algumas manifestações críticas de professores porque estou fazendo essas lives. Alguns dizem que agora é hora de o professor de yoga ganhar dinheiro. Eu digo que as lives no Instagram estão atraindo pessoas que nunca praticaram yoga e agora se interessam. Dou aulas no facebook que são cobradas. São coisas paralelas. Procurei me informar sobre o que a escola de Kaivalyadhama está fazendo nessa época e tenho conversado com médicos. Os exercícios respiratórios se tornam uma prática muito interessante.  Obviamente nehuma dessas práticas cura a covid 19. Mas se a pessoa mantiver o seu sistema respiratório funcionando bem, caso pegue a covid pode passar pelo problema com mais tranquilidade. Por isso, enfatizamos o exercício respiratório, o exercício de lavar o nariz, como prescrito pelo yoga. E também enfatizamos os exercícios de yoga para relaxar. O relaxamento não é uma técnica tão fácil. Não é só deitar. Relaxar exige atenção e concentração. A resposta foi muito positiva. Minha filha lê as mensagens no computador. As pessoas ficaram muito felizes. 

BI : Qual é o futuro do yoga no Brasil?
MR : A gente se ajuda através do yoga, que é uma disciplina  que dá liberdade às pessoas. Eu ensino aos alunos como praticar o yoga sozinhos. Vejo o futuro com muito bons olhos. Hoje a gente leva o yoga nos hospitais.  Começamos um trabalho pioneiro no Albert Eienstein, por exemplo,  levando yoga aos pacientes da oncologia. O yoga os ajudam a suportar melhor o tratamento. Os hospitais chamam especialistas de yoga e o yoga entra para somar. Não vai fazer o papel do psicólogo ou do terapeuta, mas vai ajudar aquele aluno a relaxar, a se concentrar,  a desenvolver a sua  atenção plena com o próprio corpo. O yoga tem muitas ferramentas. Alguma coisa o yoga pode fazer pelo paciente acamado, entubado, ainda que seja uma respiração simples, ou um processo meditativo. Desde que o paciente  esteja consciente, pode-se trabalhar o paciente com yoga. E o yoga entra também em presídios, nas escolas. O yoga põe um pé em várias disciplinas, mas devemos ter a humildade para reconhecer que estamos ali para contribuir, nao é para dizer que o yoga é melhor, ou que vai substituir, vai somar. Recebo alunos indicados por médicos e psicólogos. O professor de yoga, por sua vez, deve indicar, quando for o caso, o aluno para um ortopedista, um psicólogo, um psiquiatra, e aí sim, fazer um trabalho conjunto. É assim que vejo o futuro do yoga.

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