Projeto Sangam: quando instrumentistas e vozes brasileiras e indianas confluem para o mesmo rio

Foto Bianca e Julio by Daryan Dornelles Sonhos de Nascimento 2

O evento online realizado pelo Global Music Institute, pelo setor cultural da Embaixada do Brasil em Nova Délhi, pela compositora Bianca Gismonti e pelo baterista Julio Falavigna exibiu música brasileira tocada e cantada por artistas indianos e de outras nacionalidades

Florência Costa

Na tradição do Hinduísmo, o Triveni Sangam é sagrado: trata-se da confluência entre os rios Ganges, Iamuna e o mítico Saraswati. Um mergulho ali — asseguram os fiéis —  é capaz de limpar pecados. Em novembro deste ano, a compositora e pianista carioca Bianca Gismonti e o baterista gaúcho Julio Falavigna  apresentaram uma bela confluência musical indo-brasileira pela internet: o Projeto Sangam. O evento online foi organizado pelo Global Music Institute (GMI) e pelo setor cultural da Embaixada do Brasil em Nova Délhi.

O Sangam musical lavou a alma de muitos neste 2020, um ano contaminado pelo medo e pela incerteza de um vírus.  Os shows online foram alimentados por composições brasileiras de Bianca, de seu pai, Egberto Gismonti, e de outros gênios da música brasileira, como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Baden Powel, Milton Nascimento, Fernando Brant, Luiz Gonzaga. As composições foram tocadas pelo casal Bianca (no piano) e Júlio (bateria e tabla), além de outros artistas de várias nacionalidades, mas principalmente indianos.

O projeto Sangam foi dividido em quatro episódios batizados com nomes de elementos da natureza brasileira e indiana: Surya, Lotus, Cactus e Colibri. Nos quatro episódios havia um ingrediente obrigatório: a performance de um artista indiano. Como os pratos da gastronomia indiana, salpicados com inúmeros temperos misturados em uma masala, o projeto teve o gostinho dos sons de artistas de Cuba, Porto Rico, França e  Estados Unidos, que tocaram em vários momentos. A masala musical agradou os paladares mais exigentes. Como não amar Asa Branca (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) tocado por indianos? As apresentações de cada artista foram gravadas em suas casas ou estúdios e depois editadas. O GMI, sediado em Nova Délhi, é uma das principais escolas de música da Índia, fundada em 2011 por Aditya e Tarun Balani, com a missão de trazer uma aplicação moderna e distinta à educação musical.

O conjunto dos shows pode ser visto na plataforma do GMI no YouTube

CAPA Bianca Gismonti Trio – Desvelando mares (Hunnia Records)

Nos quatro episódios, há composições de Bianca Gismonti, como Folia, Ostinatos, Entre Amigos, Aonde Planam os Pássaros e Feitiço. Mas o menu inclui também clássicos da MPB como Maria Maria e Milagre dos Peixes (Milton Nascimento e Fernando Brant), Asa Branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), Por Toda a Minha Vida (Tom Jobim e Vinícius de Moraes),  Serrado (Djavan), Upa Neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri), além de Consolação e Deixa (Baden Powel e Vinícius de Moraes). Entre um prato e outro desse delicioso banquete sonoro, foram servidas iguarias requintadas de Egberto Gismonti: Loro e Forrobodó.

Essa comunhão musical, transmitida em novembro pelo canal do GMI no YouTube do e pelas redes sociais da Embaixada Brasileira na Índia, começou com o Episódio Surya, palavra em Sânscrito que significa sol. “Surya é uma referência a um início vigoroso”, explicou Bianca, em uma entrevista concedida de forma virtual ao BECO DA ÍNDIA, ao lado do marido Julio Falavigna, no Rio de Janeiro. Bianca dividiu as músicas de acordo com os nomes dos episódios escolhidos por Julio.  Nesse primeiro episódio, a indiana Varijashree Venugopal canta Folia, um experimento surpreendente. “A cantora indiana possui estudo de jazz. Então, ela já gosta de musica mais ocidental”, explicou Bianca.

Não deixe de conferir aqui o Episódio Surya

O episódio número 2 foi batizado com outra palavra da tradição indiana: Lotus, a flor sagrada do Hinduismo, do Budismo e do Jainismo. Nele, a participação indiana ficou por conta da violinista radicada em Londres Preetha Narayanan, que tocou Ostinatos. “Esse episódio é o mais introspectivo”, observou Bianca.

Aqui você pode ver o vídeo do Episódio Lotus

O terceiro episódio, batizado de Cactus. Com esse nome, a música de abertura não poderia deixar de ser o clássico baião Asa Branca. O tempero indiano nessa apresentação ficou por conta de Babar Latif Khan (tabla) e Bittu Mallik (cantor). O episódio foi encerrado com outro indiano: o flautista Apurva Seth, que tocou Aonde Planam os Pássaros.

Aqui você pode conferir esse episódio imperdível

Colibri foi o nome dado ao episódio de número 4, que teve como fecho de ouro a música Homage to Shiva (Homanegam a Shiva, uma das mais importantes divindades hindus e a mais associada à ioga), tocada por Sri Hanuman (violão e composição).

Veja aqui o episódio Colibri

A pandemia do Novo Coronavírus provocou uma reviravolta nos planos de todo mundo e não foi diferente com Bianca e Julio. Eles tinham nas suas agendas shows na Índia e na Europa, mas conseguiram apenas completar a programação indiana, em março de 2020, quando voltaram ao Brasil para não poder mais viajar.

“Em março de 2020  a gente tocou no Jazz Festival de Jaipur (Rajastão) e foi incrível. Foi um pouco antes do lockdown na Índia. A gente percebe que há muitas conexões entre Brasil e Índia no campo musical. Os indianos são muito receptivos, emotivo, calorosos”, contou Julio.

“A turnê que fizemos neste ano é impressionante, a gente sentiu uma uma identificação muito grande com os indianos. O brasileiro também tem uma coisa muito espontânea, tem a afetividade, a alegria, a musicalidade, a forma de se comunicar, a descontração. Os indianos reagem à música com o corpo, dançam, vibram muito”, recordou Bianca.

Bianca e Julio já haviam feito um um workshop para o Global Music Institute antes de realizarem o Projeto Sangam. A GMI tinha projeto musical com a embaixada brasileira chamado  “A Alma do Brasil”, com músicos brasileiros. “Eles queriam fazer um projeto incluindo músicas do Brasil, da Índia e de outros países, e assim surgiu o Projeto Sangam, em julho”, conta Julio que escolheu o nome pensando justamente na confluência musical das duas culturas.

Julio, que toca bateria e tabla, entre outros instrumentos, conta que o embaixador brasileiro em Nova Delhi, Andre Correa do Lago, sempre procurou divulgar bastante a música brasileira na Índia. Assim, foi natural surgir a ideia de exibir a intercambialidade das duas culturas.

Foto Bianca e Julio – Desvelando Mares by Daryan Dornelles

Julio e Bianca gravaram suas participações ou do estúdio que possuem em Itaipava, no estado do Rio de Janeiro, ou no apartamento deles, na capital fluminense, muitas vezes com a participação da pianista carioca Claudia Castelo Branco, com quem Bianca criou o Duo Gisbranco. Os instrumentistas e cantores gravaram onde vivem, seja no Canadá, na Itália ou na Índia. Cada um recebia a base da música e gravava a sua parte. Depois havia a mixagem de som, a edição de vídeo, ou seja, um processo laboratorial. Na etapa final, os vídeos eram enviados ao GMI e sua equipe ténica fez o tratamento final antes de lançar no canal do YouTube.

Há muitos anos a Índia ingressou nas vidas do casal Bianca Gismonti e Júlio Falavigna. Mesmo antes de se conhecerem, a compositora e o baterista já haviam sido iluminados pela ioga e meditação, que praticavam e ensinavam no Brasil: ela no Rio de Janeiro, ele no Rio Grande do Sul. Entre um asana e outro, entremeados por inspirações e expirações conscientes, os dois se conheceram, em 2009, uma união abençoada pela música clássica indiana.

Júlio, que a partir dos anos 2000 organizou vários shows de artistas indianos no Brasil,  procurava alguém que pudesse organizar uma apresentação de um instrumentista clássico indiano no Rio de Janeiro, em 2009. Um amigo indicou Bianca e os dois se conheceram. Mas não sabiam que participavam, no Brasil, da mesma organização indiana de ioga: o famoso centro Shivananda.  Não demorou muito para ambos descobrirem que além da paixão pela música, eles tinham em comum essa a conexão espiritual meditativa.

Os vínculos de Júlio com a Índia brotaram nos anos 90, quando ele morava na Europa. Naquela época, Júlio costumava viajar frequentemente para a Índia para ficar longas temporadas em ashrams (retiros espirituais)  de ioga e meditação. “Meu caso com a Índia tem quase 30 anos”, recorda. Na Europa, ele se dedicava à musica, tocando bateria. Lá, ele conheceu um de seus professores de música clássica indiana, que o ensinou a tocar tabla. Mas na Europa Júlio também teve a oportunidade de mergulhar no mundo da meditação e da ioga. “Tudo isso criou um vínculo muito forte com a Índia”, constatou.

Após a experiência europeia, Júlio foi para o Canadá, país com grande comunidade indiana. E lá ele só reforçou esse laço com a cultura da Índia, conhecendo mais músicos e aprofundando seus conhecimento de ioga. Ele voltou ao Brasil em 2000 fundou um centro de ioga em Porto Alegre. Após conhecer Bianca, passou a viver no Rio de Janeiro.

Júlio cultiva uma amizade bastante profunda com uma família de músicos indianos que vive na cidade de Vrindavan, no estado de Uttar Pradesh. Um de seus professores, Anand Kumar Malik, pertence a essa família. Entre os anos de 2000 e 2020, Júlio trouxe vários músicos indianos para tocar no Brasil, como o conhecido flautista G. S. Sachdev. O baterista brasileiro cita alguns de seus artistas indianos favoritos: o cantor Pandit Jasraj, o sitarista Nikhil Banerjee, o tablista Swapan Chaudhuri, entre outros.

O seu amor pela cultura indiana parece inesgotável. “Gosto também de todas as vertentes filosóficas indianas, de todas as religiões, das artes, do cinema, da culinária”, disse Júlio. “A gente se sente em casa com a cultura indiana, há uma identificação espontânea, não é uma identificação fabricada, até porque a Índia é uma bagunça. Muitos ocidentais vão para lá e querem que as coisas sejam certinhas e aí ficam estressados. Nós, brasileiros, temos mais flexibilidade. A gente entende a maleabilidade, a santa bagunça que é a Índia”, explicou.

Se Bianca já havia tido algum contato com a música indiana na infância, devido a seu pai, que chegou a tocar com um artista da Índia, foi Júlio que reforçou os alicerces dessa ponte musical para a compositora. Egberto Gismonti viajou para a Índia com o músico Naná Vasconcelos ainda nos anos 70 e 80 e lá ele comprou um harmonium indiano, aquele instrumento que parece uma sanfona. Egberto chegou até mesmo a tocar com o famoso flautista indiano Hariprasad Chaurasia.

Bianca Gismonti by Yuka Yamaji

“Meu pai é um músico muito singular, sempre se inspirou nas culturas as quais ele conheceu. Na primeira vez que ele foi para a Índia com o Naná, ele não era um profundo conhecedor da música indiana, mas teve muita facilidade para tocar todos os instrumentos indianos. Inicialmente ele já comprou um sitar. Durante alguns anos ele tocou sitar, mas nunca estudou com professores de música clássica indiana. Ele tocou da maneira dele”, contou Bianca.

A música indiana tocou o coração de Egberto Gismonti. “Ele trouxe para o Brasil essas influências como outras que ele foi tendo na vida”, disse Bianca. Por isso, na discografia dos anos 80 e 90 desse compositor icônico da música brasileira, o harmonium está presente. 

Bianca, que começou a tocar com o pai aos 15 anos de idade,  conta um fato bastante curioso. A famosa música Sanfona, mesmo nome do CD, não é uma homenagem de seu pai ao instrumento brasileiro, mas ao harmonium indiano. “Como o nome da música é Sanfona, as pessoa acham que ele a compôs inspirado na sanfona, mas foi inspirado no harmonium indiano. Na gravação original ele toca harmonium”, revelou Bianca

Na lista de seus artistas indianos favoritos, Bianca cita Ustad Rashid Khan. Ela acabou se envolvendo mais profundamente com a cultura da Índia quando passou a praticar e depois dar aulas de ioga no Rio. Em 2018, os dois fizeram uma viagem muito especial de 50 dias à Índia, uma verdadeira peregrinação para que Bianca mergulhasse com mais profundidade naquelas águas. Eles percorreram o país de Norte a Sul, começando por Uttarkashi, no estado de Uttarakhand, perto de Rishikesh, conhecida como a capital mundial da ioga, banhada pelas águas sagradas de um Ganges verde e limpo.

Foto Bianca e Julio by Daryan Dornelles Sonhos de Nascimento 1

“Foi super bonito. Depois seguimos para o Rajastão, Agra, Bangalore. “Tivemos a oportunidade de ver todos os contrastes, as questões dificeis que a Índia enfrenta do ponto de vista social, tivemos contato com todos os patamares de realidade”, contou Júlio. “ Por sermos brasileiros, a gente já vive uma realidade de desigualdade, de muita variedade. Mesmo diante das dificuldades, há a característica de um povo alegre. É diferente de um europeu visitando a Índia”, refletiu Bianca.

Naquela viagem, o casal ganhou um presente inestimável: assistir um show de Pandit Jazraj em Nova Délhi. “Vê-lo cantar foi maravilhoso. Ele tinha 88 anos, faleceu recentemente”, lembrou Júlio. Toda essa experiência com a Índia culminou na confluência musical deste ano de 2020. “Os ritmos folclóricos da Índia e do Brasil se assemelham”, disse Júlio.

Ele explica que a música clássica indiana é chamada modal, que é uma música que tem um centro, não muda vários acordes. “Ela tem muita variação melódica, mas não de acordes . A música indiana tem uma riqueza muito grande nessa parte melódica. A música ocidental tem muita riqueza na sua parte harmônica, das variações. Eu acho que essa conversa musical que fizemos no Projeto Sangam criou riqueza para todos os lados”, concluiu Júlio. “A música indiana tem muita variação. Uma coisa que surpreendeu a gente foi que todos os músicos indianos que trabalharam no projeto estudaram muito aquilo que eles gravaram, eles se dedicam muito ao preparo”, observou a compositora carioca.No final do espetáculo, o Projeto Sangam deixou aquele gostinho de “quero mais”.

“A gente ficou com muita vontade de continuar, de fazer projetos como esse com outros músicos indianos e com outras composições. Estamos acalentando a ideia de unir outras embaixadas no projeto também”, contou Bianca. 

O show parece estar apenas começando.