Quais são as lições de Bon Bibi, a deusa do maior manguezal do mundo, celebrada em uma história em quadrinhos de um grande escritor indiano?

A história de Bon Bibi, um espírito feminino que protege a floresta dos Sundarbans, é contada em Jungle-nama, que traz a mensagem de que a ganância deve ser limitada de que de deve haver equilíbrio entre as necessidades dos seres humanos e de outros seres vivos

Florência Costa

Bon Bibi é um espírito feminino bondoso que protege a floresta dos Sundarbans, uma área de mangue no delta formado pela confluência dos rios Ganges, Brahmaputra e Meghna na Baía de Bengala. O Sundarbans é a maior floresta de mangue do mundo. Bon Bibi é reverenciada por hindus e muçulmanos de comunidades que vivem da coleta de mel, de cera de abelha, de caranguejos e da pescaria nessa área localizada no estado indiano de Bengala Ocidental e em Bangladesh.

A lenda de Bon Bibi foi recontada, em versos, por Amitav Ghosh, um dos maiores escritores indianos da atualidade, um mestre das palavras e um defensor do gênero que ele chama de literatura climática: Jungle- nama (Editora HarperCollins India). A história em quadrinhos é ilustrada por Salman Toor.

Templo de Bon Bibi no Sundarbans. Crédito: Wikipedia

Duas ideias principais estão costuradas nessa lenda dos Sundarbans: o limite da ganância e o equilíbrio entre as necessidades dos seres humanos e de outros seres vivos. Essas ideias, segundo o autor, frequentam as lendas das florestas de todo o mundo. “Esses são valores essenciais para essa Era de crise planetária”, explicou Ghosh, em comentários no site da editora.

Sundarbans, a maior floresta de manguezal
do mundo. Crédito: Wikipedia

O cenário do Sundarbans, uma região muito afetada pela crise climática, já estava presente em uma obra anterior de Ghosh: The Hungry Tide (A Maré Faminta, em tradução livre).  Jangle-Nama, portanto, é uma adaptação de uma das lendas do Sundarbans, e conta a história do rico e avarento mercador Dhona, o pobre Dukhey e sua mãe. Mas dois personagens fundamentais na lenda são Dokkhin Rai, um poderoso espírito que surge na forma de um tigre, e, é claro, de Bon Bibi. A deusa está acompanhada de seu irmão guerreiro, Shah Jongoli.

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Nascido em 1956 na cidade de Calcutá, hoje rebatizada Kolkata, capital do estado de Bengala Ocidental, Amitav Ghosh explica que a lenda de Bob Bibi regula o cotidiano dos habitantes daquelas florestas do Leste da Índia, e também de Bangladesh, ditando a forma como eles se relacionam com a natureza e com os animais, especialmente os tigres.

Amitav Ghosh. Crédito: Amitav Ghosh website

Ghosh é autor de obras fundamentais, como a Trilogia Ibis composta pelos livros Mar de Papoulas (traduzido para o português pela Editora Alfaguarra) , Rio de Fumaça (também traduzido, Ed Alfaguarra), além de Flood of Fire, este último ainda não traduzido para o português. Em tradução livre o título seria Enchente de Fogo. O pano de fundo da Trilogia Ibis é a Guerra do Ópio e da exploração ocidental sobre a Índia e a China. A questão das mudanças climáticas são centrias na obra de Ghosh.

O autor cresceu na Índia, em Bangladesh e no Sri Lanka, e hoje vive entre Nova Iorque e a Índia, daí sua recheada bagagem multicultural. Suas obras, traduzidas já para 30 línguas, lidam com história, viagem, política, além do meio ambiente. O último livro lançado por Ghosh, antes de Jungle-Nama, foi Gun Island (2019), sobre mudança climática, migrações e crise de refugiados.



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