Qual é a conexão entre literatura indiana e clima?

Enchente em Kolkata. Crédito: Social news XYZ

Amitav Ghosh, um mestre indiano das letras não se cansa de alertar, em entrevistas e em seus livros, sobre a mudança climática. O escritor  questiona porque a literatura reserva um espaço tão pequeno a esse assunto tão importante.

Ghosh é o autor da famosa trilogia Ibis (Mar de Papoulas, o primeiro da série, foi finalista do prestigioso prêmio Man Booker, em 2008). Em 2016 ele publicou o livro The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable (O grande transtorno: mudança climática e o impensável),  uma coleção de ensaios sobre mudança climática. Nele, o  escritor indiano pergunta: “Somos insanos?” Ele explora as razões pelas quais em toda a história, os habitantes da Terra fizeram tão pouco para prevenir a sua destruição.

Ghosh observa que a mudança climática tem uma presença muito menor na ficção literária contemporânea do que em discussões públicas. Quando o assunto das mudanças climáticas surge, diz Ghosh, é quase sempre nas obras de não-ficção. E a mudança climática é crucial nos dias de hoje, comparável a guerra e fomes, assuntos explorados fartamente na literatura mundial, destaca o escritor.

A sua obra é permeada pela questão climática, pela história, pelos efeitos da migração. A sua trilogia Ibis teve dois dos primeiros volumes traduzidos para o português e publicados pela Alfaguara: Mar de Papoulas e Rio de Fumaça. O terceiro volume, Enchente de Fogo, ainda não foi. Em junho de 2019, Ghosh publicou sua última obra: Gun Island, que explora os efeitos das migrações em um mundo que está em constante transformação.

O mundo literário da ficção pode ter se tornado mais engajado em muitas frentes, constata Ghosh, mas ainda permanece inconsciente da crise climática que bate à nossa porta. Há muito tempo que o autor, nascido na cidade de Calcutá, hoje rebatizada de Kolkata (estado indiano de Bengala Ocidental) está preocupado com a mudança climática.  

Ghosh, como todos os bengaleses, sabem bem como são os efeitos de eventos extremos. Kolkata sempre amargou enchentes, mas elas estão mais intensas e frequentes: os eventos extremos de chuvas se tornaram mais comuns. Os ciclones também estão se tornando mais violentos na Baía de Bengala e as suas águas estão subindo mais rapidamente do que a média global.

Veja aqui a entrevista que Ghosh deu sobre esse assunto ao website indiano The Quint, na qual ele lê um trechinho do seu livro “The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable”:

Amitav Ghosh adverte que o nível das águas é uma das coisas mais preocupantes da mudança climática, lembrando que até a sua cidade, Kolkota, está abaixo do nível do mar.

Assim, diz ele, até um aumento marginal do nível do mar será uma imensa ameaça a milhões de pessoas. Ghosh contou, nessa entrevista, que passa bastante tempo no Sundarbans, um mangue arbóreo que integra a maior florestas desse tido, em seu estado de Bengala Ocidental (Leste da Índia).

O Sundarbans é formado no delta dos rios Ganges, Bramaputra e Meghna, na Baía de Bengala. Esse contanto com o Sudarbans o fez perceber o que está realmente acontecendo e a natureza dos impactos e as consequências humanas disso. Ghosh diz que isso vai ser a coisa mais difícil de enfrentar.

Ele conta que sua família foi obrigada a deixar seu vilarejo de origem em Bengala Ocidental há muito tempo, ainda no século 19, porque o local foi tomado pelas águas do rio. Isso tudo, segundo ele, o fez começar a tentar entender o que está acontecendo com o planeta hoje.

Seja o primeiro a comentar em "Qual é a conexão entre literatura indiana e clima?"

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*