Quando a Garota de Ipanema entra no ritmo de Bharatanatyam: Dia da Diversidade Cultural

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, a bailarina  brasileira que vem e que passa, dançando “Garota de Ipanema” na batida do Bharatanatyam, estilo clássico do Sul da Índia. Iara Ananda, professora do Centro Cultural Swami Vivekananda, que divulga a cultura indiana em São Paulo,  bate os pés no chão, marcando a música mais famosa do Brasil, criada nos anos 60 pela dupla genial Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

E como manda a tradição desta dança clássica indiana, a dançarina descreve com os mudras (gestos de mãos) a beleza que passa sozinha, a solidão do admirador da garota de corpo dourado, com seu balançado que é mais do que um poema.

Essa incrível fusão de danças fez parte da programação do Dia Mundial da Diversidade Cultural, comemorado em um evento online na terça, 26 de maio, por diplomatas indianos e brasileiros e representantes dos Centros Culturais da Índia no Suriname, Guiana e Brasil.

Iara Ananda apresentou primeiro uma dança clássica tradicional, Pushpanjali, dedicada ao deus hindu Ganesha. Pela tradição, tão importante na cultura indiana, Ganesha deve ser homenageado com uma dança logo no início no repertório de Bharatanatyam: é uma dança-oferenda a essa divindade com cabeça de elefante, tão amada na Índia. Depois, Iara mostrou a fusão com o uso da técnica do Bharatanatyam, utilizando os mudras, as expressões faciais e o trabalho dos pés. A terceira apresentação foi a dança pura (nritta), para a famosa batida de samba brasileira sobre a música “Batucada”, de Phillybloco. Os participantes do evento multicultural online estavam plugados na internet do Brasil, do México, do Suriname, da Guiana e da Índia.

Quem perdeu essa dança, pode assistir o vídeo gravado pela professora, cujo link está aqui:

Também representando o Brasil nesse festival multicultural, o diplomata Fausto Godoy, explicou como constribui, no Brasil,  para que os brasileiros possam conhecer melhor as civilizações asiáticas, especialmente a Índia. Godoy, que hoje coordena o Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em São Paulo, foi consul e embaixador em vários países da região, como Índia, China, Japão, Paquistão, Afeganistao, Myanmar, Bangladesh, Vietnã e Casaquistão, entre outros.

O contato com a cultura indiana teve forte impacto da vida do diplomata brasileiro, que passou a colecionar peças não só da Índia mas de outros países da região, que simbolizam essas civilizações. Ele doou três mil peças para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, que passou a ter a primeira e única ala dedicada à arte asiática na América Latina. São peças que vão desde os tempos antigos até contemporâneas.

Museum Oscar Niemeyer, Curitiba. Credito: Wikipedia

“A cultura indiana é tão importante que decidi concentrar minha carreira na Ásia. Eu sou muito preocupado com o fato de o brasileiro até hoje dar  muito pouco improtância à outra parte do mundo. Nós somos  muito concentrados no Ocidente, mas o mundo é globalizado e temos que entender o outro. Essa foi a lição que eu tive na Índia”, disse ele, que viveu 16 anos em 11 países da Ásia, em contato com culturas e religiões das mais diversas, como o Hinduismo, o Islamismo, o Zoroastrismo etc.

Diretor-geral do Conselho Indiano de Relações Culturais (ICCR, sigla em inglês), Dinesh Patnaik explicou em sua mensagem que a vida, sem cultura, é vazia. “Em tempos de Covid 19, com todos trancados dentro de suas casas, podemos entender a diferença entre existir e viver porque sem a cultura o que seria a vida, senão uma concha vazia?”, questionou.

 A força coletiva do mundo, segundo ele, está baseada na diversidade cultural. “Quando dividimos a nossa cultura com outros, quando apreciamos outras culturas do mundo, nós representamos a humanidade da melhor forma. A melhor parte da cultura é compartilhar, fazer as coisas juntos”, observou Patnaik.

Quando a humanidade passa por crises intensas, como pragas e guerrras, a criatividade cultural explode, disse Dinesh Patnaik, lembrando o exemplo do argelino Albert Camus (1913-1960), que escreveu “A Peste” (1947)  justamente durante uma praga. Ele destacou também que o físico britânico Isaac Newton ( 1643-1727) descobriu a gravidade também durante uma praga. O mesmo ocorreu com William  Skakespeare (1564- 1616), que escreveu “Rei Lear” durante a peste negra.

“Há algo na natureza humana que durante uma crise, durante uma perda, durante uma situação dificil, nós tendemos a ter uma fluxo de criatividade. Em momentos de tragédia e desespero, o espírito humano se manifesta pela cultura. Posso dar mais exemplos, como Pablo Picasso (1881-1973) e sua obra ‘Guernica’ (1937)”, afirmou Patnaik. O famoso quadro retrata o bombardeio de Guernica durante a guerra civil espanhola (1936-1939).

Dinesh Patnaik. Credito: Facebook

“A criatividade é uma defesa humana contra a impotência. Em uma situação como a pandemia da Covid 19, usamos a nossa criatividade porque isso nos dá um significado em meio ao sofrimento. Quando nos confrontamos com a nossa mortalidade, percebemos que não estamos sós, que estamos juntos. Se você conseguir embutir a cultura em sua vida, você se torna resiliente e forte porque no final das contas, a cultura define quem nós somos, a cultura molda o que queremos ser e também quem acreditamos que somos ”, concluiu o diplomata indiano. Segundo ele, 90% da diplomacia no mundo está relacionada à cultura.

Manpreet Vohra, embaixador da Índia no México, disse que esses dois países são orgulhosos de suas civilizações, culturas e diversidades, que resultam em uma natural tolerância. O embaixador da Índia na Guiana, K. J. Shrivasa, reforçou a necessidade de manter a harmonia cultural: “A cultura abraça todos os fatores, como nacionalidade, etnicidade, raça, religião, tradição, e hábitos alimentares”.

O consul-geral da Índia em São Paulo, Amit Mishra, lembrou que neste período de confinamento devido à pandemia vimos que a criatiavidade inspiradora em vários países do mundo foi uma forma de lidar com estresse do confinamento. “Vimos desde a cantoria de óperas das varandas dos edifícios na Itália até os artistas indianos cantando no vídeo ‘United Against Corona’, divulgado pelo ICCR”, afirmou.  

“Minha experiência no Brasil e o trabalho do Centro Cultural em São Paulo, divulgando para o povo brasileiro ioga, aiurveda e vendanta, reforçou a minha percepção de que, antes de tudo, é a cultura que nos une”, completou Mishra.

Puja Kaushik, diretora do Centro Cultural Swami Vivekananda em São Paulo, destacou que a melhor forma de lidar com o confinamento e buscar por conforto e esperança contra uma doença mortal, é pela cultura. “A cultura traz uma mensagem de esperança, e uma atitude de espírito de luta”, concluiu.

Além da apresentação da dança indiana-brasileira, houve também exibições de fusões de danças indianas com caribenhas e de misturas de músicas mexicanas com o tabla indiano. Estavam presentes no evento online ainda o embaixador da Índia no Suriname, Mahender Singh Kanyal, os diretores dos Centros Culturais Swami Vivekananda de Paramaribo (Suriname), Sharad Kumar, e de Georgetown (Guiana), Sunil Kumar Singh, além do historiador cultural mexicano Conrado Tostado, entre outros participantes.

Florência Costa

1 comentário em "Quando a Garota de Ipanema entra no ritmo de Bharatanatyam: Dia da Diversidade Cultural"

  1. Martha Maria de Carvalho Lossurdo Suk | 28 de maio de 2020 at 12:47 | Responder

    A delicadeza da belíssima dança de Iara Ananda, combinada com a riqueza dessa matéria são um presente que nos convida a celebrar a vida!

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