Quando um tigre de Bengala conta a sua história

Tigre de Bengala. Crédito: Sunderbannaturalpark.in

No livro ‘Um Tigre para Maguldi’, R.K.Narayan dá voz ao animal nacional da Índia

O protagonista de Um Tigre Para Maguldi (traduzido para o português pela Editora Guarda-Chuva), do indiano R. K. Narayan (1906 – 2001) tem voz, sentimentos e poder de reflexão. Raja, o tigre, nos relata a sua história desde os tempos em que reinava em uma floresta da Índia até os últimos dias no Zoológico, após ter passado por maus bocados em um circo, ter sido obrigado a atuar em filmes na terra de Bollywood, e finalmente ter encontrado um asceta bondoso.

Narayan, tido como o maior romancista indiano na língua inglesa do século XX, nomeado várias vezes para o Nobel de Literatura, chegou à conclusão de que não havia forma melhor de observar os absurdos humanos do que pela visão de um tigre real de Bengala (Panthera tigris tigris), o animal nacional da Índia (e também de Bangladesh).

Para escrever Um Tigre para Maguldi ele inspirou-se em alguns casos de amizade entre homens e tigres. Um deles foi relatado em um jornal indiano:  sobre um monge que tinha como melhor amigo um tigre. O animal andava ao lado dele, sem coleira, já que “haviam sido irmãos em uma vida pregressa”, como contou o humano da relação.

Mas a imagem que deu ao famoso escritor indiano a definição de como montaria a sua história foi a de um marcador de livro. A figura do tigre era acompanhada de uma mensagem, que pareceu uma sugestão para Narayan: “Adoraria entrar um bom livro”.

A proposta foi aceita e o autor criou um livro que nos arranha a alma. Certa vez, em uma entrevista, um jornalista perguntou a Narayan por que ele não escolhera outro animal, por exemplo, um camundongo.

Sua resposta foi como seus textos: simples e brilhante. “Para que o personagem principal não corresse o risco de ser esmagado ou simplesmente desaparacer, entrando num buraco”.

Em Um Tigre para Maguldi, o personagem principal revela ao leitor:  “Eu possuo uma alma, sou capaz de pensar, de julgar, de lembrar. Só não posso falar”.

 Maguldi era uma pequena cidade fictícia do Sul da Índia que Narayan criou para ser cenário de várias de suas obras.Como a própria Índia que simbolizava, a Maguldi da imaginação de Narayan tinha o perfume dos séculos, remontava aos tempos do épico Ramaiana e havia sido até mesmo visitada por Buda.  

No prefácio de Um Tigre para Maguldi, escrito em 1982, Narayan, explica que o asceta  surgiu na vida do tigre quando o animal perambulava pela cidade. O sadu o salvou e virou seu amigo. As pessoas perguntavam: quem é você?.  O asceta  respondia: “É o que estou tentando descobrir”. 

Afinal, quando alguém é tomado pela paixão do autoconhecimento,  abandona a vida normal e torna-se um sadu, ou sannyasi, ou swami, explicava Narayan. Seu passado é apagado. Pela boa etiqueta indiana, não se deve perguntar a um asceta sobre o seu passado. O que existia antes vira cinzas. Alguns sadus chegam mesmo a realizar um funeral de sua existência passada até o momento em que ele decidiu se retirar para meditar para o resto daquela vida, lembra o autor no préfácio.

 Acredita-se que os iogues mais experientes possuam poderes mágicos, como o de tornarem-se invisíveis, ou levitar. Mas eles só devem ser usados para aliviar o sofrimento dos outros. E assim fez o sadu de sua estória: usou o seu poder para salvar o tigre e para transformá-lo interiormente. 

Afinal, a tradição espiritual e filosófica indiana indica – como ressalta Narayan –   que independente da aparência, ou de categorias, é possível conseguir respostas semelhantes de um tigre ou de um homem, desde que a abordagem utilizada seja correta.

Narayan e seus livros. Crédito: en.etemaaddaily.com

Narayan já foi apelidado de Tchekhov indiano, uma referência ao russo Anton Tchekhov (1860- 1904). As semelhanças foram apontadas pelo escritor inglês Graham Greene, que  leu pela primeira vez alguns escritos do indiano. Greene, que o ajudou a publicar seus primeiros livros, achava que a sua literatura tinha de fato um quê de russa pela tristeza sutil e humor delicado ao descrever histórias do cotidiano com contexto social.

Ao ler Swami and his Friends (1935), Greene comoveu-se com a estória de uma criança “escrita com completa objetividade, com um humor estranho à nossa ficção, mais próximo de Tchekhov do que qualquer outros escritor inglês, com o mesmo senso subliminar de beleza e tristeza”. Foi inclusive com Swami and his Friends que Narayan criou a sua Maguldi.

Narayan, nascido em Madras (antiga cidade de Chennai, capital do estado de Tamil Nadu, no Sul da Índia), escreveu muitos livros, romances, ensaios, contos e novelas, como The English Teacher, The Bachelor of Arts, Maguldi Days, The Financial Expert. Ele também mergulhou na infindável mitologia indiana para reescrever estórias do Ramaiana e Mahabhárata, grandes sucessos seus dentro da Índia.

Mas a foi com a novela The Guide (1958) que Narayan foi levado para as telas do cinema e para os palcos da Broadway: a obra descreve como Raju, um guia turístico, se transforma em um famoso guia espiritual. No Brasil foram lançados, além de Um Tigre para Maguldi, O Pintor de Letreiros e O Guia, todos traduzidos pela brasileira Léa Nachbin e publicados pela editora Guarda-Chuva.

— Florência Costa

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