Quem dança seus males espanta: conheça a magia dos estilos clássicos do Sul da Índia

Patricia (esquerda) e Iara dançam juntos Bharatanatyam. Credito: Apolo Sales

Há anos as professoras e coreógrafas de Bharatanatyam Patrícia Romano e Iara Ananda, mãe e filha, divulgam no Brasil as danças clássicas indianas

Por Florência Costa

Anna Pavlova (1881-1931), uma lenda do balé russo do fim da primeira metade do século 20, incentivou a indiana Rukmini Devi (1904- 1986) a redescobrir as tradicionais formas de danças da Índia. O Bharatanatyam e outras danças clássicas de seu país estavam escondidas durante os anos de colonização britânica. A indiana seguiu o conselho da russa e tirou o Bharatanatyam e outras danças clássicas de seu país do baú da História a partir dos anos 30 e 40.

Essa é uma das muitas histórias que os leigos nessa arte não conhecem e que a coreógrafa, professora e dançarina Patrícia Romano conta. “Isso tudo havia sido perdido na época da colonização britânica. Houve uma retomada pelos indianos do que é seu até a independência, em 1947”, ”, diz ela, que desde os anos 90 divulga as danças do Sul da Índia no Brasil. Patrícia teve sucesso em atrair a filha, Iara Ananda, para o mundo da dança também.  

Há três décadas, as pessoas no Brasil costumavam confundir danças clássicas indianas com dança do ventre. Hoje a situação mudou. O público brasileiro passou a conhecer um pouco mais sobre essa milenar arte indiana, nascida nos templos hindus.

Rukmini Devi. Credito: Wikimedia

Convidadas para uma live do BECO DA ÍNDIA, Patrícia e Iara explicaram o que diferença entre as danças Bharathanatyam, Kuchipudi e Mohiniyattam.

Quando elas começaram a dançar no Brasil, nos anos 90,  as pessoas não sabiam o que eram as danças indianas e as confundiam com dança do ventre. Alguns alunos procuravam dança indiana porque já tinham uma ligação com o ioga.

“As pessoas hoje conhecem um pouco mais. Já há quem procure as danças indianas porque viu na internet e gostou. O que as pessoas ainda não sabem é distinguir uma dança indiana clássica da outra”, contou Iara, formada em Bharatanatyam pela Natyalaya School of Classical Dances da Índia. Sua guru, Shrimathi Kalamandalam Sumathi, é do estado indiano de Tamil Nadu, onde nasceu esse estilo de dança. Até o início da pandemia, em março, Iara dava aulas no Centro Cultural Swami Vivekananda, que foi fundado em 2011 e é ligado ao consulado-geral da Índia em São Paulo. “O Centro Cultural faz esse papel de divulgar as danças com suas aprensentações e aulas. Já formamos muita gente lá”, conta.

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Anna Pavlova. Credito: Wikimedia

As alunas e alunos brasileiros querem aprendem rapidamente. “Mas rapidez não existe em dança indiana. Para quem tem pressa, o melhor é o estilo Bollywood, que também é divertido. Demora 10 anos para formar alguém em dança clássica indiana. É como o balé clássico”, explicou Patrícia.  “Na Índia, as alunas começam a aprender nas escolas a partir dos três anos de idade”, completou Iara.

Patrícia estudou primeiro o balé clássico e contemporâneo,  e mais tarde, a dança clássica indiana. Além do Bharatanatyam, as duas também são especializada nos estilos Mohiniyattam e Kuchipudi, e já se apresentaram em vários países da América Latina representando a Escola Natyalaya.

A partir de 2005, com a introdução do estilo de dança pop indiana “Bollywood” no Brasil, Iara, como principal bailarina e diretora do grupo Bollywood Brazil,  passou a se dedicar também a esse estilo.

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Iara tinha apenas 8 anos quando começou a dançar, seguindo os passos da mãe. “Levar a Iara foi uma consequência natural porque ela ficava vendo eu dançar e acabava fazendo junto”, disse Patrícia, que desde a infância sentia-se atraída pela cultura indiana, especialmente a dança.

“Mas nos anos 70 não existia nada de dança indiana no Brasil. Eu já era bailarina, fiz ballet clássico e contemporâneo. Mas quando conheci a minha guru [  Shrimathi Kalamandalam Sumathi], foi amor à primeira vista”, lembra Patrícia. O seu interesse era unir a parte espiritual com a arte.

Iara dança ‘Garota de Ipanema’ no estilo Bharatnatyam

Ela foi para a Índia e ficou numa Gurukul, um antigo sistema de ensino indiano no qual os alunos vivem com os mestres como se fossem da família.  “Não é uma coisa comercial. Existe uma linhagem pela qual as filhas e netas também dançam. E a minha guru sempre falava para eu trazer a Iara para a dança”, recorda Patrícia.

Iara lembra bem de seu início: “Nossa ‘teacher’ veio para o Brasil em 1996. Eu ía as vezes assistir aulas”. Patrícia conta que a filha costumava corrigi-la nos gestos das mãos e nos passos.  E foi nesse ano de 96 que Patrícia abriu uma turma para a filha e mais três amigas. Mais tarde, elas conseguiram abrir, por um determinado tempo, uma espécie de Gurukul em uma casa.

O famoso diálogo entre Krishna e Arjuna, da Bhagava Gita, é simbolizado nas danças 

Os mitos indianos são muitas vezes contados nas danças. Uma dança Kuchipudi que Iara costuma apresentar, por exemplo, conta o momento em que Krishna mostra para Arjuna sua forma universal. Krishna é um avatar do deus hindu Vishnu e Arjuna é um guerreiro do épico Mahabhárata. No capítulo mais famoso  desse épico, conhecido como Bhagava Gita, Krishna e Arjuna travam um diálogo muito simbólico sobre a importância do dharma (o dever de cada um).

O Sul da Índia tem quatro estilos considerados clássicos, uma convenção firmada após a independência da Índia: são o Bharatanatyam, o Kuchipudi, o Mohiniyattam e o Kathakali. Antigamente, apenas homens dançavam o Kathakali e somente mulheres dançavam o Mohiniyattam.

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“O Bharatanatyam é considerado o mais puro, se levarmos em consideração o Natyashastra, antigo tratado indiano das artes. Mas há exceções. O estilo de dança Kathak, do Norte da Índia, que tem influência muçulmana, por exemplo, não é baseado  base do Natyashastra”, explicou Patrícia.

“Para os muçulmanos, Deus está fora e no alto. Por isso, a postura do Kathak é esticada”, ressalta Patrícia. “Para os hindus, Deus está dentro da gente. Por isso existe a postura sentada nas danças relacionadas ao Natyashastra”, explicou.

O estilo Bharatanatyam segue o Natyashastra de forma mais direta, sem acrescentar elementos, segundo ela. “Por isso é muito geométrico, quase matemático”, completou. O estilo Mohiniyattam é bem próximo do Bharatanatyam, mas é influenciado pela cultura do estado de Kerala, com seus coqueiros e mar, onde surgiu. “A roupa do Mohiniyattam é da cor da espuma de mar. Não há roupas coloridas como no Bharatanatyam”, disse Patrícia.

Mas os repertórios dos estilos Mohiniyattam e Kuchipudi baseiam-se no do estilo Bharatanatyam. A mestre indiana de Patrícia e Iara prefere formar os alunos primeiro em Bharatanatyam, uma dança bastante geométrica e técnica, e depois em Kuchipudi e Mohiniyattam.

“Se você dança Bharatanatyam, você dança tudo. Mas se você só dança Mohiniyattam, não necessariamente consegue dançar Bharatanatyam”, explicou Patrícia. Rukmini Devi chamava o Bharatanatyam de ioga dinâmica. “Nessa dança, o corpo, a mente e o espírito estão junto ao mesmo tempo, no agora. Isso já é ioga, você fala internamente o que faz, pensa o que faz. Voce fica consciente do seu corpo e da sua mente. Assim, você liberta o seu espírito para dançar. É como se você assistisse o seu corpo dançando. Você simplesmente olha aquilo acontecer. Você é dançado pela dança”, explica Patrícia.

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Livro que Patricia escreveu e foi editado por Iara

Há 10 anos, Patrícia escreveu um livro chamado “Natya”, no qual conta a sua experiência com a dança indiana, explica as diferenças dos vários estilos , detalhe os aspectos técnicos do Bharatanatyam. O livro, que possui muitas fotos, acabou sendo editado pela filha Iara como objeto central do Trabalho de Conclusão de Curso. Iara formou-se em Letras e se especializou em Edição de Livros pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A evolução das danças milenares

Apesar de serem danças milenares, elas sofrem evolução com o tempo. “Obviamente o Bharatanatyam que se aprende hoje não é igual ao que eu aprendi e o que eu aprendi não era igual ao Bharatanatyam de tempos passados”, conta Patrícia.

“Isso é bonito no Hinduismo, não se cristaliza. É tudo muito vivo, dinâmico. Daí a tradição na Índia de se transmitir os conhecimentos oralmente”, diz. Hoje, segundo Patrícia,  há bailarinas de Bharatanatyam com as pernas muitos compridas. “Quando eu aprendi, não era assim”, afirma.

 Patrícia lembra de uma peça que costumava dançar, que simbolizava uma competição entre o deus Shiva e a deusa Kali. Shiva estava perdendo e então resolveu jogar os brincos de Kali no chão. Em seguida, ele coloca o brinco com o pé na orelha. Ele sabia que Kali não levantaria a perna mais de 90 graus porque era indecente. “ Quando eu aprendi essa dança,  não podia levantar a perna mais de 90 graus. Hoje em dia as dançarinas já levantam”, contou.

O estilo Kuchipudi também sofreu várias mudanças. Inicialmente era uma dança dedicada a Shiva. “Após o renascimento desse estilo, passou a ser relacionado com o Rio Krishna, que passa na região onde eles retomaram essa dança”, contou Patrícia. Por isso, o Kuchipudi passou a simbolizar mais Krishna.

Hoje em dia é comum dançar uma fusão dos estilos clássicos com outras formas de dança. Em dezembro de 2019, a Escola Natyalaya de Patrícia e Iara apresentaram um show que misturava Bharatanatyam e Rock: o chamado “Bharata and Roll”. Nesse ano, durante um evento online do Centro Cultural Swami Vivekananda, Iara apresentou uma versão Bharatanatyam da música Garota de Ipanema, de Vinícios de Moraes. 

Há danças que contam histórias, outras não Existem as danças voltadas puramente para a beleza, para a estética. E existem as danças que contam histórias. “Os movimentos dos olhos, das mãos (mudras) podem ou não dizer alguma coisa. Esses movimentos podem servir como acabamento da dança ou para contar uma história”, disse Patrícia. O objetivo da bailarina é conquistar o público.  “Se você não atingir o público, você não dançou, não cumpriu o objetivo, que é capturar. A bailarina faz uma conexão tão forte que ela arrasta o público”, diz.

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