Saiba como o Ioga se conecta com a dança indiana

Silvana Duarte e o Odissi. Credito: Ana Falcão

Silvana Duarte, professora de Odissi no Centro Cultural Swami Vivekananda, explicou a conexão entre ioga e este estilo de dança clássica da Índia

Na Índia, as diferentes formas de artes andam de mãos dadas há milhares de anos. Assim, as danças clássicas indianas estão relacionadas com outras formas de arte, como o teatro, a música, a pintura, a literatura, a arquitetura, a escultura, e também com as práticas espirituais e o autoconhecimento. “Dançar é um meio de viver em ioga, de conexão interna”, explicou Silvana Duarte, professora de Odissi, um dos oito estilos de dança clássica indiana, durante uma live no Facebook promovida pelo Centro Cultural Swami Vivekananda (CCSV), onde ela leciona.

“A conexão do Ioga com a Dança” foi o tema da entrevista com a professora, feita pela jornalista Florência Costa, editora do BECO DA ÍNDIA. O evento, apresentado pela diretora do CCSV, Puja Kaushik, fez parte das comemorações do Dia Internacional do Yoga, 21 de junho. No final desta matéria há um link para acessar o vídeo da entrevista integral.

Silvana, professora sênior do estúdio Padmaa, Arte e Cultura, participa do CCSV desde 2011, quando foi criado em São Paulo, como centro cultural da Índia, por iniciaiva do governo indiano. Nesses tempos de pandemia, as aulas de Silvana são oferecidas online na página do Facebook do Centro Cultural Swami Vivekananda e no Padmaa, Arte e Cultura. Por serem aulas online, ela tem alunos de várias regiões do país. Silvana informou que o Padmaa, Arte e Cultura vai oferecer, a partir de setembro, o primeiro curso de capacitação em dança Odissi,  para os interessados em lecionar.

“Dançar é um meio de fazer sempre o caminho de retorno para dentro de você mesma porque não existe absolutamente nada fora”, completou Silvana. Ela lembrou a máxima do norte-americano Joseph Campbell (1904-1987), professor de Literatura que ficou famoso pelos seus trabalhos sobre mitologia e religiões: “Siga a sua Felicidade”.

Ela seguiu a sua felicidade e leciona dança há 34 anos. Silvana começou com estilos ocidentais: balé clássico, moderno, jazz reeducação do movimento. Ainda adolescente, com 17 anos, teve seu primeiro contato com o ioga. Seus pais faziam ioga e a apresentaram a essa prática. Ela conta que seu livro de cabeceira era o clássico “Ioga Para Nervosos”, do professor Hermógenes, com muitas fotos dos asanas, e essas imagens a fascinavam.

A professora lembra que é comum dizer que a dança clássica indiana é um “sadhana”, palavra do Sânscrito que significa o caminho da prática que resgata o divino e a elevação do espírito dentro das pessoas. “Dança é sadhana, ioga é um sadhana. É o processo de aprendizado pelo qual  a gente acessa uma ferramente para o desenvolvimento ou auto-aperfeiçoamento”, disse. “Enquanto eu fazia dança, eu sentia falta do ioga. E quando eu fazia ioga, sentia falta do movimento da dança”, comentou.

Silvana foi pela primeira vez à Índia em 1993, por sugestão de sua professora de ioga. Seu destino foi o ashram de Sai Baba , no sul do país.  “Eu conheci a cultura indiana pelo viés dos ashrams, da espiritualidade. A experiência que eu tive no ashram foi maravilhosa”, contou.

Ela lembra que um dia, no ashram, após ver um discurso de Sai Baba, assistiu uma apresentação de dança de Kuchipudi, um estilo clássico do estado indiano de Andhra Pradesh. Foi uma dança que representava Krishna com as Gopis (pastoras de vacas).

Aquele foi um momento de encantamento total para Silvana, que a fez constatar: “Isso é dança, isso é bhakti yoga, é o yoga da devoção”. Sob o impacto de todas essas emoções, Silvana voltou ao Brasil com a Índia na mente. Ela descobriu que existia uma escola de dança Odissi em Karnataka, no Sul da Índia, e escreveu para lá, pedindo para ser aceita.  “Até aquele momento eu só tinha visto uma apresentação de cinco segundos de Odissi em um vídeo do Michael Jackson, o Black or White, lembrou. A imagem da dançarina com a típica coroa e uma torre do templo  permaneceu na sua memória.

Veja aqui o clip do Michal Jackson

Mas havia um problema nesse sonho: a escola indiana, chamada Nrityagram, não aceitava estrangeiros. Silvana, porém, não se deu por vencida e comprou uma passagem, certa de que receberia uma carta de aceitação. A carta não veio e ela viajou para a Índia do mesmo jeito. Chegando lá, bateu na porta da escola, um Gurukul: esse estilo de escola de dança tradicional indiana, na qual os alunos vivem lá com os gurus. “Eles estavam com a resposta da minha carta no escritório, guardada nos arquivos. Meu período tinha sido aceito, mas a carta não tinha sido enviada”, lembrou.

Havia apenas uma condição para ser aceita: ensinar os principios do balé clássico e lecionar ioga para os dançarinos. “Foi uma benção entrar num universo tão tradicional quanto o gurukul”, recorda ela. A Nrityagram, a 27 km de Bangalore, foi fundada por Protima Bedi (1948-1998), esposa do grande ator de cinema indiano Kabir Bedi. “Ela foi minha primeira guru”, contou Silvana.

 A vida em um Gurukul é saudável e ecológica. A vida lá era em completa comunhão com a natureza. “É autosustentável. A gente acordava às 6h30, fazia uma caminhada, eu dava aula ioga, depois tínhamos as práticas, o almoço, o descanso, o chai das 16h e voltávamos a praticar dança até de noite. Eram pelo menos 7 a 8 horas de prática de dança por dia. Entrei no final de 1995 e fiquei lá em 1996. Depois, voltei ao Brasil, mas retornava e ficava 3 meses lá”, recordou. “Nesse ambiente eu percebi o que era o Bhakti ioga”, ressaltou Silvana.

Toda vez que se inicia uma dança Odissi, as dançarinas tocam a Mãe Terra. “A Mãe Terra deve primeiro nos perdoar por batermos o pé nela. Também pedimos a benção para toda a experiência elevada que teremos através do corpo”, disse.

Mas o que é a dança Odissi ? “ É um estilo de dança muito antigo. Existem comprovações textuais da existência de muitas posturas do Odissi já no século II a.C. É uma dança que floresceu no ambiente dos templos no estado de Orissa, na costa Leste da Índia, na Baía de Bengala”, explicou a professora.

Cada estilo de dança clássica indiana tem um figurino, uma música, uma técnica muito sua. O Odissi, disse Silvana, é uma dança extremamente escultural e lírica. “O Odissi combina e equilibra muito bem os elementos masculino e feminino enquanto qualidade de movimento. Ela equilibra muito bem a graça e o vigor na sua forma”, afirmou.

Silvana Duarte e seu grupo de Odissi em performance do evento Diwali OMKAR.
Credito: Elza Cohen

No primeiro capítulo do Natyashastra, texto milenar da Índia sobre as artes, há uma justificativa mitológica da criação do teatro, que deve ser conjugado com a dança, com a música, e com todas as artes. “Todos os deuses estavam entediados. Eles vão até Brahma, o deus criador, e pedem para que ele crie uma arte, um entretenimento audível,  visível, que encantasse o coração deles e que fosse permitido a todas as pessoas, de todas as castas, credos e cores. O conteúdo dessa arte deveria ser uma ferramenta para elevar-se a Deus”, explicou Silvana.

Um aspecto fundamental do Odissi é a necessidade de auto-observação e da disciplina. “É preciso observar os estados de sua mente. É muito importante que você tenha essa conexão com você mesma, com o seu corpo nessa dança que vai contar uma história. O próprio processo de aprendizado faz com que você entre em contato você mesma”, disse.

Impossível mergulhar em uma dança tão expressiva sem estudar o que há por trás dos seus símbolos, dos seus mitos. “Quando você entra em contato com esse universo da mitologia, em que a imagem é o ponto de partida para compreender toda a relação com o sagrado, aí a gente está falando de Bhakti Yoga”, ressaltou. “Você começa a entender que falar de um mito da cultura indiana não é diferente dos valores de outras culturas”, constatou.

Silvana Duarte np evento Diwali OMKAR, em
2018. Credito: Elza Cohen

Não é preciso saber Sânscrito para entender a dança. “Mesmo na Índia as pessoa que vao assistir uma apresentação de Odissi não sabem Sânscrito. Mesmo aqui no Brasil uma pessoa que não tem contato ou familiaridade com aquela história ou com aquele personagem mitológico, consegue, dependendo do artista, identificar e imprimir internamente aquele significado”,  disse a professora.

Os mudras (gestos de mãos), por exemplo, estão sempre presentes nessa dança. “Posso mostrar muitas coisas com os mudras: nuvens, floresta, posso convidar algúem ou posso dormir.  O gesto pelo gesto qualquer pessoa pode aprender, mas o poder que você imprime no gesto só aquilo que é vivido internamente é capaz de imprimir”, opinou.

Silvana lembrou que em junho celebrou-se o Festival em homenagem a Jaganath, uma deidade da dança Ossisi reverenciada em Orissa. Há um grande Festival no mais importante Templo de Jaganath, situado na cidade sagrada de Puri, um imenso complexo com mais de 2 mil sacerdotes. Ela explicou que cada estilo de dança clássica tem uma deidade que a preside. A deidade que preside o Odissi é Krishna, avatar de Vishnu, o deus hindu da Preservação.

O Templo de Jaganath é importante para a dança Odissi porque foi dentro desse templo que nasceu uma classe de mulheres que dançava para Deus. “Elas dançavam Odissi perante a divindade Jaganath”, disse. Essa classe de dançarinas, chamadas Maharis, moravam dentro do templo desde os 9 anos de idade. “Elas passavam a vida inteira nessa função de dançar perante Deus. Era puramente devocional”, afirmou. A última Mahari faleceu há cerca de seis anos. A deidade Jaganath tem origem na cultura dos povos indígenas, ou tribais, como se diz na Índia. “Mas os  seguidores de Vishnu vão dizer que ele é Vishnu, os seguidores de Krishna vão dizer que ele é Krishna, outros dizem que ele é Shiva”, contou. Mas um sacerdote do templo explicou a ela que Jaganath, na verdade,  é um ícone que reúne todos os deuses.

Para assistir essa entrevista na Íntegra, procure na página do Centro Cultural Swami Vivekananda no Facebook.

— Equipe Beco da Índia

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